Gisbertas, Genis e Ellens

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É difícil mensurar o que me inquietara mais àquela época, a notícia trágica da morte ou o modo como falavam de Gisberta, como se fosse culpada pela própria queda. O ano era 2006 e eu havia acabado de passar no vestibular para o curso de Direito na Puc-Minas.

Lembro-me de ter visto o caso no Jornal Nacional, noticiaram que uma prostituta e travesti brasileira havia sido torturada durante vários dias seguidos por um grupo de treze crianças e adolescentes em Portugal, sua morte se deu não em função das múltiplas agressões a ferro que lhe foram infligidas, mas por afogamento no fosso de quinze metros de profundidade onde fora jogada e onde passara dias até sucumbir de cansaço.

“A distância até ao fundo é tão pequena.

No fundo, é tão pequena,

A queda.

E o amor é tão longe.”[1]

Noticiaram a morte com certa banalidade, e era inevitável não ligar Gisberta à Geni do Chico Buarque, como se o fato de ser prostituta e/ou travesti justificasse todas as pedras que a atingiram. Joga pedra na Geni/Gisberta! Joga bosta na Geni/Gisberta! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni/Gisberta![2]

Passaram-se cerca de seis anos até que Gisberta voltasse a me inquietar, não me lembro, até então, de ouvir mais nada sobre seu caso e que fim levaram seus agressores. Acabei dedicando-me a carreira acadêmica e ao estudo do ódio, do ódio que levara Gisberta a morte, do ódio que fizera de Gisberta semelhante à Geni. Do ódio que permite que muitas Genis e Gisbertas continuem sendo jogadas em fossos e apedrejadas até a morte.

Não vi a morte ou o ódio sendo cantados por Maria Bethania da primeira vez que ouvi Balada de Gisberta. Como convém a um ouvinte distraído, pensava que a música tratava apenas do destino de mais um amor contrariado, daqueles que o cheiro de amêndoas amargas inevitavelmente nos recorda.

Precisei que me perguntassem se eu, que pesquisava o ódio, sabia quem era a Gisberta que dava nome a música. Após simples pesquisa descobri que a Gisberta da Balada interpretada por Bethânia com tanta maestria, era a mesma que havia caído no fosso do ódio ao qual acabei dedicando meus estudos.

Jogar pedra na Geni, Jogar a Gisberta no fosso, é a expressão máxima do ódio, dessa representação social que forjada culturalmente é dirigida especificamente para determinados indivíduos que são marcados e estigmatizados como inferiores e anormais por não expressarem ou pertencerem a uma identidade hegemônica. Esse ódio que é canalizado justamente para impossibilitar que as Genis e Gisbertas tenham espaço para se expressar, para existir.

Genis, Gisbertas e também Ellens Olérias. Mulheres. Pessoas. Pessoas que carregam no corpo e na alma a marca e o signo do ódio, em umas é o sexo e a identidade de gênero destoantes que as tornam menos humanas, em outras a cor da pele, o basalto que emana dos poros.

Ellen Oléria canta em primeira pessoa a sua história, a história de uma mulher negra no Brasil. A música de Ellen Oléria difere um pouco das histórias de vida de Geni e Gisberta, não narra apenas o ódio e seus efeitos danosos, mas também vislumbra uma saída desse fosso. E nesse ponto a música reverbera a história de muitos que como Ellen, Geni e Gisberta apesar de todo o ódio e preconceito, e dos apesares todos, não desistem de se tornarem exatamente aquilo que são.

Ellen afirma não dominar a esgrima mas a sua palavra é afiada e nos contamina. Do que se percebe que não é através da violência que esse contexto de ódio será modificado, e sim através da mudança de pensamento e do diálogo.

“Andando na rua de noite muita gente branca já fugiu de mim
A minha ameaça não carrega bala mas incomoda o meu vizinho
O imaginário dessa gente dita brasileira é torto
Gritam pela minha pele, qual será o meu fim?
Eu não compactuo com esse jogo sujo
Grito mais alto ainda e denuncio esse mundo imundo
A minha voz transcende a minha envergadura
Conhece a carne fraca? Eu sou do tipo carne dura!”[3]

Se a letra da música de Ellen é dura e nos mostra com crueza como o ódio é pernicioso e é capaz de destruir a vida daqueles que são colocados à margem da sociedade e do direito, seja em razão cor da pele, do sexo, da sexualidade, da origem étnica ou por fatores econômico-sociais, por outro lado percebe-se pela evolução da melodia que para Ellen há uma mudança possível.

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Programa de rádio escrito para a disciplina “Teoria da Justiça” ministrada no curso de pós-graduação em Direito da Universidade Federal de Minas Gerais. Professora: Mônica Sette Lopes

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links dos vídeos

[1] ABRUNHOSA, Pedro. Balada de Gisberta

[2] BUARQUE, Chico. Geni e o Zepelim

[3] OLÉRIA, Ellen. Música: Testando

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