Podres Poderes : Deus rechaça o pecado, mas acolhe o pecador

Nem bem o ano começou e o Sumo Pontífice da Igreja Católica Romana reafirmou seus votos de rechaço a homossexualidade.

“Tão péssima e horrenda [a homossexualidade], tão contrária à ordem da natureza, que ‘indigno de ser nomeado’, quanto mais cometido: crime terrível, que levara Deus a destruir as infames cidades de Sodoma e Gomorra na remota Antiguidade, e ainda provocaria “terremotos, tempestades, pestes e fomes” se não fosse extirpado da face da Terra. Abominável e torpe, assim se julgava o chamado “vício nefando”, pecado que parecia “feio mesmo até ao Demônio”[1]

Ooops, confundi. Essa citação não é do Papa Bento XVI. Essa citação foi retirada da Primeira Constituição do Arcebispado da Bahia de 1707…

Vamo ver, acho que é essa:

“Toda perversão sexual atenta violentamente contra as normas sociais.[..] esses criminosos (pederastas) têm perturbadas as suas funções psíquicas”, a sociedade não pode permitir-lhes “uma liberdade que eles aproveitariam para prática de novos crimes”. Ora “o homossexualismo é a destruição da sociedade, é o enfraquecimento dos países”; se ele “fosse regra, o mundo acabaria em pouco tempo” — acrescentava outro médico-legista,”[2]

Não é essa também. Essa é de 1928 do médico brasileiro Aldo Sinesgalli, aquele que queria criar um manicômio pra trancafiar todos os homossexuais a fim de extirpar a homossexualidade da sociedade…

Será que é essa?

“As relações sexuais ilícitas têm provocado ultimamente muitos terremotos em várias regiões do mundo”.”

Não, essa é de 2010 e é do Aiatolá Kazem Segihi do Teerã. Em 2010, eu estava namorando… Será que aconteceu algum tsunami por minha causa? Desculpaê, galerê. Foi mals, sabe como é né?

 Calma que eu vou achar a declaração do Sumo Pontífice da Igreja Católica. Nome grande, posso chamar de Bentinho? Pode? Ok. Bentinho… Não confundam com o da Capitu, ok?

Bentinho disse que o “casamento homossexual é uma ameaça à família tradicional e que tal prática colocaria em xeque o próprio futuro da humanidade”

Se não é a primeira vez que você lê este blog deve saber que sou ativista de direitos humanos (não zoa) e deve estar se perguntando por que diabos estou brincando com esse discurso do Papa Bentinho Sixteen e desses outros lideres religiosos… Eu poderia citar aqui trechos das Ordenações Portuguesas, poderia citar trechos ainda mais antigos de teólogos cristãos ou de médicos e advogados higienistas da década de 1950, e mesmo assim o discurso seria igualzinho, e não menos risível. E por isso mesmo são discursos que me preocupam, e por isso mesmo pesquiso esse tipo de discurso há quase 6 anos. São discursos que fazem rir ( imagino ilhas no pacífico sul sendo alvo de um tsunami e terremotos toda vez que faço sexo com uma mulher), mas são discursos que tem o poder de matar. Como bem lembrado por Foucault ‘esses discursos de verdade que fazem rir e que tem o poder de matar são, no fim das contas, numa sociedade como a nossa, discursos que merecem um pouco de atenção.’

Como já disse aqui outras vezes, a homossexualidade só deixou de ser considerada uma doença há pouco menos de 20 anos.

Em 1985, o Arcebispo do Rio de Janeiro Dom Eugenio Salles dizia que a Aids, conhecida com a peste gay, era um flagelo de Deus contra os homossexuais e seu pecado infame.

Quando eu nasci, em 1986, a homossexualidade ainda era considerada uma doença mental, muitos gays foram internados em hospitais psiquiátricos, Juquery deve ter um acervo enorme de prontuários como prova. Diversos tratamentos eram ministrados aos homossexuais tais como; internação e terapia compulsória, transplante de testículos ou ovários; insulinoterapia; eletrochoque; lobotomia; castração; ‘terapia da aversão’.

Em 1993, quando a OMS retirou a homossexualidade do rol de doenças mentais, eu tinha apenas 7 anos… Quando meus pais descobriram a minha homossexualidade, e minha mãe procurou uma psicóloga pra ‘ver meu caso’, eu devia ter uns 18 anos, a dita psicóloga me perguntou se eu achava que a homossexualidade era uma coisa normal... Foi no mesmo ano que o Conselho Federal de Psicologia reiterou as proibições da resolução CFP 001/99 em decorrência do alto número de psicólogos propondo a cura de homossexuais.

Cá estamos em 2012 e o Bentinho vem novamente com esse papo de que a homossexualidade é um atentado contra a sociedade, que coloca em risco o futuro da humanidade, o mesmo discurso dos idos de 1300 (Ordenações Portuguesas). Aquele mesmo discursinho dos higienistas que queriam descobrir as causas da homossexualidade e quem sabe a cura da mesma para assim trancafiar homossexuais em instituições corretivas. O mesmo discursinho tacanho desses que acham que a homossexualidade é um desvio moral. O mesmo discursinho que faz rir, mas é o mesmo mal-dito discurso que subjuga homossexuais há séculos. Que mantém os homossexuais à margem da sociedade. Que ainda impede a aquisição de direitos civis, que criminaliza a homossexualidade em mais de 70 países, sendo em 5 desses punida com a morte.

É o mesmo discursinho que ‘justifica’ a morte de pessoas como Cleides Antônio Amorim, professor na Universidade Federal do Tocantins, foi assassinado no dia 5 de janeiro, na cidade de Tocantinópolis, em um ato bárbaro de homofobia

Mesmo discursinho de inferioridade que nos leva a discutir se homossexuais podem ou não se beijar numa novela. Ou que faz com que um ator que interpreta um gay não queira que sua filha veja dois homens se beijando. E diz que não é homofóbico, porque também não gostaria que tal criança assistisse uma cena de violência, por exemplo. Pois bem, comparar homossexualidade a atos de violência não é homofobia, né? Ok, Cláudia…

É o mesmo discursinho também que leva gays como Ney Matogrosso a dizer que:

“Eu acho que os gays no Brasil tinham que ter um pouquinho mais de consciência do seu significado como grupo e não ficar subindo em caminhões nas paradas gays e ficar se beijando.”

Bom. Eu também acho que os gays deveriam ter mais consciência política sim. Mas não essa forma de consciência que o Ney Matogrosso acha que deveríamos ter.

Faço da minha orientação sexual uma opção política, assim e nas devidas proporções, como a Rosa Parks, recusando pra mim e para os meus a pecha de minoria anormal que querem nos fazer engolir. A minha orientação sexual é parte fundamental da minha personalidade, e se as paradas gays e beijaços são também ferramentas de luta para que eu possa exercer plenamente a minha personalidade, por que não usá-las? Por que isso diminuiria a nossa luta? Admiro muito o trabalho do Ney Matogrosso, mas discordo veementemente dessa sua fala.

É triste ver gays aderindo ao discurso heteronormativo, e aceitando essa inferioridade.

Ouço muito “ah, a sociedade não está preparada”. Bom, a sociedade nunca esteve preparada para pessoas como Rosa Parks. E acho que tá mais do que na hora dos LGBT se tocarem e pararem de aceitar esse discursinho tacanho de inferioridade, venha do Papa, de um Iatolá, da Presidenta Dilma, do seu pai ou de um colega de trabalho.

How Gay Marriage Could End Humanity

 *post sem correção e escrito num dia de fúria


[1] Primeiro e único sínodo colonial, realizado em 1707 em Salvador Trópicos dos pecados, Ronaldo Vainfas

[2] leia  mais aqui http://www.tuliovianna.org/index.php?option=com_docman&task=cat_view&gid=15&Itemid=

8 Respostas para “Podres Poderes : Deus rechaça o pecado, mas acolhe o pecador

  1. Érika, primeiramente quero me apresentar. Sou estudante universitária, lésbica e moro em Fortaleza/CE. Gosto bastante do seu blog e sempre leio quando posso. Permita-me apenas discordar de sua fala no que tange a colocar as críticas às Paradas da Diversidade Sexual (PDS) como uma rendição ao discurso heteronormativo. Entendo que existam muitos militantes engajados, esforçados e tudo mais, mas não me reconheço nas PDS e mesmo em outros eventos, como a Caminhada pela Visibilidade Lésbica, na qual certas ativistas usam termos como “sapatão” e “fanchona” pra fazer “militância”. Há uma dificuldade enorme dentro dos movimentos LGBT, de modo geral e salvo raríssimas exceções, de se fazer ouvir e de cativar as mentes de seu público alvo. Criticar, apontar o que está errado dentro de seu meio não necessariamente significa estar rendido à opressão, pode ser um clamor sincero por mudança! Se tem tanta gente do meio reclamando, com argumentos bem embasados, isso não deve ser necessariamente tomado como algo do tipo “ah, não vale a pena mesmo lutar pela causa, vamos cuidar da nossa beleza”. Enfim, talvez você esteja odiando o que eu te escrevo, mas é só pra atentar pra essas possibilidades que passaram batido na feitura do texto (você disse que o escreveu nas pressas). Um grande abraço.

    • Ei Deborah,

      Não estou odiando nada, boba! rs… Eu também tenho minhas críticas a PDS de bh, a caminhada daqui é bem politizada, participo todo ano. Concordo que talvez seja um clamor de mudança. Mas não acho que devam ser abandonadas… passou batido sim… Eles (ney e parada) nem eram meu foco de crítica, era o discurso heteronormativo mesmo… Beijões

  2. Sou homossexual assumido e concordo -veementemente- com a opinião de Ney Matogrosso. Não é “discursinho”, como a autora do texto tenta, em vão, desmerecê-lo. Fui um dos primeiros paulistanos a aderir e defender a importância da Parada Gay, que, em seus primórdios, tinha um sentido político urgente e absolutamente visível. Eu mesmo organizava um grupo grande, hospedava gente de outros estados, e até do exterior em minha casa, mas com o passar do tempo, percebi que o entusiasmo pelo evento se diluia, as pessoas (gente de cabeça ótima, todas amadas) que me acompanhavam, queixavam-se discretamente sobre o que “a Parada estava se transformando”. Até que após a edição de 2007, eu mesmo disse basta. Além de ter me cansado de ver cenas de violência nela, a Parada perdeu o sentido político, esvaziou o seu discurso, tornou-se um festival de bundas celulitosas sacudindo em carros alegóricos e de gente querendo aparecer às custas de qualquer baixaria. Um espetáculo deprimente, de mau gosto, que, infelizmente, só serve pra fomentar ainda mais o preconceito. Ter bom senso e agir publicamente com o mínimo de elegância e educação, não é, de maneira alguma, aderir ao comportamento “heteronormativo”, mas um princípio ético básico de quem procura reivindicar algum direito. E já que vc tocou no nome do Ney (sobre uma entrevista que nem foi ao ar ainda), talvez vc ignore completamente, mas esse grande artista é, até hoje, o maior militante da originalidade que esse país já teve. Um músico que jamais se enquadrou em comportamentos normativos. Sua força cênica, sua coragem e sua liberdade criativa, valem mais que um milhão de discursos políticos, gays ou não.

    • Gato, eu também tenho minhas críticas em relação as paradas e beijaços, mas acredito que são ferramentas que devemos usar, se elas não são do jeito que gostaríamos devemos nos mobilizar para mudá-las. Em BH os beijaços e a caminhada lésbica são bastante politizados, a parada tem deixado a desejar e eu mesma não fui na última, mas é uma questão de mudança. Eu adoro o Ney e concordo com tudo que vc disse sobre ele… Quanto ao discursinho, não sei se você notou, me refiro a heteronormatividade como discursinho, não quanto ao que o Ney disse. Espero que tenha esclarecido….

  3. Érika! Muito bom o seu texto.
    Fico feliz em saber que tenho uma pessoa tão próxima que luta por uma causa que também é minha, apesar da minha inércia. Só tenho a agradecer e começar a me mexer… é um pequeno passo, mas compartilhando esse post espero chegar a muita gente que já me disse coisas absurdas como muitas das citadas por você.

    • Você por aqui, caloura!

      Eu que agradeço por compartilhar! A gente vai mudando o mundo assim, aos pouquinhos, mudando as pessoas ao nosso redor, quebrando preconceito, fazendo refletir! Vamo que vamo, essa luta é todo dia! =)

      Beijo!

  4. Pingback: DEUS RECHAÇA O PECADO, MAS ACOLHE O PECADOR | PCdoB de Lauro de Freitas Ba·

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