As meninas que pareciam garotos

(Aceitação/Larte)

Seria um final de semana como qualquer outro, não fosse pelo medo de que finalmente as ameaças verbais se tornassem físicas, marcas na pele de uma dor que já lhe era impingida na alma desde que se entendera por gente. Nunca imaginara que naquele ambiente em que todas as tribos da Savassi se misturavam depois das festas durante os fins de noite fosse se tornar palco de mais uma agressão.

Ao sair de casa se arrumou como que de costume, ocultando a sinuosidade de um corpo feminino dentro de roupas largas, travestia-se todos os dias de menino, como gostava de lembrar. Partiu para uma dessas festas temáticas da Savassi, era noite da Lady Gaga. Lá chegando, encontrou a namorada que vestia-se do mesmo modo, pareciam dois garotos gays, mas um olhar mais atento perceberia que debaixo de todos aqueles signos aparentemente masculinos se escondiam dois corpos femininos. Como se os signos que carregavam em suas roupas ou os corpos que possuíam importassem para definir quem realmente eram elas. Talvez isso não importasse para aquelas pessoas que dançavam freneticamente ao som de ‘Born This Way’. Não, realmente não se importavam. Não se cobriram de arrependimentos (tal qual o reverberado por Lady Gaga) em razão de sua identidade sexual e de gênero discordantes do que é tido como ‘normal’, ‘natural’ e ‘universal’. Elas sabiam, ou acreditavam, estar no caminho certo.

Final de festa, cansadas e famintas, se dirigiram ao Mc. Donalds e fizeram o pedido de costume, dois Chicken Club Gril, duas Cocas e batatas. Pegaram o pedido e se sentaram nas mesas que ficam na calçada, o restaurante como sempre estava lotado e barulhento. Sentaram-se e começaram a conversar tranquilamente sobre a festa e as músicas que dançaram, sobre as escolhas acertadas ou não dos DJ’s convidados, até que a conversa foi interrompida brutalmente por xingamentos vindos de uma mesa próxima. As agressões verbais partiam de três homens, típicos pit-boys, que gritavam para que todos ouvissem:

– Essas duas aí são caminhoneiras! Sapatões!

– Vocês se vestem como homens, agora vão apanhar como homens!

 – Vamos socar a cara de vocês! E chutar a cabeça até vocês morrerem suas marias tomba-homem!

Os xingamentos proferidos por estes distintos filhos da Tradicional Família Mineira foram acompanhados por risos e chacotas de várias pessoas que também freqüentavam o local, mas especialmente apoiados pelas moças que os acompanhavam.

As meninas que pareciam garotos nem sequer terminaram seus sanduíches, se retiraram do estabelecimento correndo com medo de serem agredidas fisicamente. Ao que tudo indicava, os filhos e filhas da Tradicional Família Mineira poderiam partir para cima delas a qualquer momento no afã de cumprir as promessas de agressão e morte.

As meninas que pareciam garotos e que há pouco dançavam ao som de Lady Gaga correram escutando risos, vaias e xingamentos. Ficaram com medo de chamar a polícia e de serem novamente vítimas da discriminação homofóbica, só que dessa vez por parte do Estado. Já tinham ouvido histórias de amigas e amigos que apanharam da própria polícia em casos bem parecidos. Seria melhor fugir e dormir com mais essa história de agressão verbal, e seria até um alívio disse uma delas, pois pelo menos dessa vez, as promessas de agressão não tinham se tornado ato.

Infelizmente, a história acima narrada só fictícia quanto ao pedido do sanduíche, não sei se as meninas pedem sempre o mesmo no Mc. Donalds. O restante é fato ocorrido recentemente na Savassi, em Belo Horizonte, essa pequena capital patriarcal e provinciana do Estado de Minas Gerais.

Creio que a Tradicional Família Mineira, por meio de seus filhos e filhas, tentou e tenta a todo momento repudiar em certa medida aquilo que as meninas que pareciam com garotos e a Lady Gaga acreditam: ‘não há nada de errado em amar quem você é.’ Entretanto, percebemos que quando você não é homem, branco, heterossexual, cristão, classe-média urbana, há sim muitos motivos para não amar quem você é.

Esses grupos hegemônicos são tidos como ‘naturais’, ‘normais’ e ‘universais’, mas necessitam movimentar instituições como a família, a escola, o Estado, a religião e a mídia para se afirmarem como tais. Grupos que ainda precisam de episódios como o relatado acima, ou de lâmpada fluorescente para bater no primeiro não-heterossexual que encontrar pela frente a fim de afirmar a ‘naturalidade’, ‘normalidade’ e ‘universalidade’ de sua sexualidade.

Essas meninas que pareciam  garotos são apenas um  dos tipos daquilo que chamamos de identidade sexual lésbica, que é uma das várias identidades sexuais e de gênero dissonantes do grupo hegemônico de identidade sexual hetero. Não existe apenas um tipo de lésbica, assim como nao existe apenas um tipo de mulher heterossexual.

Essas identidades divergentes daquela sexualidade tida como norma assustam por demonstrarem que a sexualidade é eminentemente fluída e contingente. Assustam por demonstrar que não é um dado natural ser hétero. A fluidez e liberdade sexual de pessoas como as meninas que pareciam com meninos colocam em risco toda aquela construção histórica de que a heterossexualidade é universal.  E é justamente por colocar essas normas sexuais e de gênero em questão, que sofrem discriminações tanto da sociedade quanto do Estado.

As agressões e ameaças dos três filhos Tradicional Família Mineira ilustram como esse dispositivo de poder, que é o controle da sexualidade,  tenta extirpar da sociedade aqueles que não se enquadram à norma.  A ameaça de agressão física ou verbal é uma tentativa de docilizar os corpos daquelas moças, e de impor uma transformação no tipo de corpo mulher e no tipo de identidade sexual que elas deveriam ter, ou que no mínimo, deveriam apresentar em público. Essa vigilância constante dos corpos, das identidades sexuais e de gênero refletem um olhar panóptico sobre as sexualidades.

Percebemos que as questões de identidade sexual e de gênero não são meramente íntimas ou de cunho privado, por mais que sejamos ensinados a pensar assim. Dar visibilidade à nossa identidade sexual e de gênero, assim como as meninas que pareciam com garotos fizeram, é um ato político. Infelizmente, a atitude de se assumir ou dar visibilidade a essas identidades sexuais dissonantes da norma heterossexual tem o peso da discriminação e do preconceito.

Há uma tentativa hipócrita, de tentar manter essas questões de identidade sexual e de gênero no campo do privado, como se isso fosse possível. Tal possibilidade só é aventada quando se trata de identidades dissonantes da norma. Aceita-se que alguém tenha uma identidade sexual diversa desde que não a torne pública, que não use signos do outro sexo, que não se identifique de modo diverso à regra. As meninas que pareciam meninos talvez passassem despercebidas se não usassem símbolos que as identificassem com o masculino.

Esse processo de ‘aceitar’ o outro desde que ele não se identifique enquanto desviante da norma é uma outra forma de opressão, exclui-se aquele que é diferente, e inclui aquele que é mais parecido. E isso não significa que o outro é aceito, é incluído de fato, mas que no máximo a visibilidade de sua identidade desviante é permitida em determinados espaços privados ou guetos. Ignorando que a identidade sexual e de gênero é parte essencial da vida de qualquer indivíduo e que a identidade sexual e de gênero não pode simplesmente ficar em casa quando se vai ao trabalho, a escola ou ao supermercado.

Dar visibilidade às identidades sexuais dissonantes, se assumir publicamente enquanto não-heterossexual, como fizeram as meninas que pareciam garotos, como a própria Lady Gaga e tantos outros fazem cotidianamente é simplesmente uma tentativa de ser quem se é publicamente, assim como os outros tidos como normais fazem a todo momento.

* Érika Pretes, advogada, 25 anos, é militante do movimento LGBT e pesquisadora de direitos humanos. Participa do Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual (GUDDS), que atua na UFMG e blogueira: http://www.inquietudine.wordpress.com

** texto originalmente publicado na edição de outubro do jornal O Cometa

11 Respostas para “As meninas que pareciam garotos

  1. Muito bom esse texto, Érika! É aquela velha história: “Vc pode ser homossexual, desde que não me faça lembrar disso.” E o que mais me chocou no relato foi saber que outras mulheres estavam apoiando a agressão verbal. Isso é que é anti-natural. Como é possível não empatizar com o próprio gênero? Que terrível!

  2. Esse texto tocou em um ponto que muitas vezes não é lembrado, sendo assim, permite-se uma propagação de preconceitos internalizados. Quando os próprio gays, por exemplo, excluem, de certa forma, uma expressão natural do comportamento. Como foi dito no texto ” Não existe apenas um tipo de lésbica, assim como nao existe apenas um tipo de mulher heterossexual”. Algumas pessoas, inclusive gays, não entendem isso, e acabam dando continuidade ao preconceito, que por sua vez, está impregnado de certa forma, tanto na cultura dominante, como na na chamada subcultura. Um adendo: Adorei seu blog, Talita R da Silva. Passei por lá, estou lendo-o agora.

  3. Eu fico cada vez mais boquiaberta com a diversidade de intensidade que a homofobia e o machismo podem atingir, quando falamos que a barbárie já está aí é justamente por coisas como este caso, imagino quantxs outrxs trans já enfrentaram situação semelhante e não é mostrado ao público, só quando toda essa violência atingir alguém próximo a alguma pessoa com notoriedade…

    Em tempo, tenho desconstruído muito a noção biologicista na qual fui formada lendo os teus textos.

  4. Pingback: Feira de Links #5 | Groselha News·

  5. O sistema Brasil é tão imundo, pobre e totalitário que não tolera qualquer manifestação de independência seja ela no pensar, sentir ou agir, mesmo que esta venha de homens brancos heteros e ricos.

  6. Lugar de agressor, homófobo ou não, é na cadeia. O problema desta merda de país não é a falta de uma lei anti-homofobia mas sim a falta de toda ou qualquer lei.
    Abaixo a impunidade e viva o trabalho, a luta limpa, a igualdade de oportunidades e o mérito.

  7. Vamos combinar, uma cidade que nasce com o nome de Curral Del Rei, em plena vigência da República e da urbanização, mostra de cara a sua vocação para o atraso e seu apego ao que é retrógrado.

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