Visibilidade lésbica?

Acho que você está se perguntando porque é que existe um dia da Visibilidade Lésbica, se nós homossexuais já temos um dia do Orgulho Gay? Essa questão me inquietava, porque visibilidade? Já que é pra especificar, porque não um dia do Orgulho lésbico? Porque ‘visibilidade’?

Daí que no decorrer das minhas pesquisas sobre homossexualidade e homofobia eu descobri que não existem muitos relatos, por exemplo, no Brasil, sobre mulheres sodomitas, ou mulheres que foram tratadas em hospitais públicos ou privados por terem sido diagnosticadas com ‘homossexualismo’(até 1993 o homossexualidade era considerada uma doença pela OMS).

Para os Inquisidores Portugueses que perseguiram sodomitas era inimaginável que duas mulheres pudessem fazer sexo sem a presença de um homem. Daí que temos pouquíssimos relatos desse período sobre mulheres que mantinham relações sexuais ou afetivas entre si.

E o mesmo ocorreu com as lésbicas durante o período em que a homossexualidade foi considera uma doença pela OMS. Os médicos desse período diagnosticaram pouquíssimas mulheres com “homossexualismo”, pelo que sei apenas uma mulher foi estudada no Brasil. No início do século XX vários homossexuais foram objeto de estudo, financiados muitas vezes pelo Estado brasileiro, tentava-se com essas pesquisas descobrir a cura para esse tal ‘desvio da sexualidade humana’.

Você deve estar se perguntando porque diabos eu estou falando de sodomia e homossexualismo, não é?

Eu estou falando como uma pesquisadora da homossexualidade no Brasil e se hoje você quiser escrever um livro sobre esse tema você ficará preso a história da homossexualidade masculina no Brasil. São pouquíssimas as fontes que relatam a homossexualidade feminina, e ousaria dizer que tal raridade de fontes não é um ‘privilégio’ nacional.

As mulheres que mantém relações sexuais e afetivas com outras mulheres sempre passaram desapercebidas e por isso não fazem parte dos livros de história da homossexualidade. João Silvério Trevisan nos informa isso na introdução de seu livro “Devassos No Paraíso” em que apenas um capítulo é dedicado as lésbicas.

Historiadores como João Silvério Trevisan e James Green deixam claro que suas obras sobre a homossexualidade não negam a existência de lésbicas lésbicas no Brasil nesses períodos, a grande questão é que não foram deixados relatos de suas histórias. Raros são os casos como Felipa De Souza.

As lésbicas atualmente são retratadas como objeto de desejo masculino e se você for no Google imagens vai encontrar essas mulheres sempre refletidas pelo olhar masculino.

Pra não corrermos mais esse risco de uma única história da homossexualidade é que surgiu o dia da Visibilidade Lésbica.

E no intuito de contribuir para esse dia da Visibilidade Lésbica deixarei aqui o meu relato sobre a minha vivência da homossexualidade, enquanto lésbica num Brasil heteronormativo. A (não) história das lésbicas sempre foi escrita por homens, está na hora de mudar isso, não?

Ajude-nos a munir os historiadores do futuro de informações sobre como vivem,  pensam,  amam, sofrem preconceito e são discriminadas, o que desejam as mulheres lésbicas do século XXI.

Escreva um post pro dia da visibilidade lésbica para a chamada da blogagem coletiva das Blogueiras Feministas. 

14 Respostas para “Visibilidade lésbica?

  1. Sabe que sempre me perguntei isso tb… mas como o Sincero aí em cima pensava ser pelo fato das mulheres serem mais discretas… mas pensando bem não faz sentido já q os homens tb não ficavam por ae gritando ao mundo q eram gays… rs
    Mto interessante esse post parabens ^^

  2. O que incomoda é o machismo gigante que tem nessa história. A impressão que tenho é que o ato sexual era compreendido como tal apenas se tivesse um pênis e mais especificamente penetração envolvidos, estou errada? E né? É muito machismo num pensamento só!

  3. Érika, qual seu sobrenome? Queria citar seu artigo num material que estou fazendo sobre a data, para o Sindicato dos Bancários do Espírito Santo.😉

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  5. Pingback: Fragmentos de uma reflexão sobre a visibilidade lésbica « Roupas no varal·

  6. Bom texto, Érica!
    Porém existem fontes sobre homossexualidade feminina sim. Elas aparecem sim nos relatórios inquisitoriais, mas o problema para os inquisidores era definir o conceito de “sodomia feminina”. Explicando, é que para o ato ser considerado completo deveria existir a troca de flúidos.
    Sobre isso, tem alguma coisa nos estudos do Ronaldo Vainfas, especialista em História Moderna pela UFF. O livro que ele trata melhor sobre isso é o Trópico dos Pecados.

    Desde já, fica uma abraço!

  7. Olá, Érika, tudo bem? Então, eu concordo com bastante do que vc disse e, inclusive, acabei de me formar em História pela UFF com um estudo sobre sodomia feminina na primeira visitação do santo ofício ao brasil. de fato, o desinteresse pela sexualidade mulher “lésbica” (coloco ente aspas pq o termo é recente) precede o período inquisitorial e, tanto era este o motivo da não-perseguição às sodomitas, que a sodomia feminina deixou de fazer parte da alçada inquisitorial no início do século XVII. O livro do Vainfas, já citado pela Flávia, amiga minha de faculdade, é bastante bom, mas, também não tem o seu foco nas mulheres. Posso te indicar, sobre isso, o “A coisa Obscura: Mulher, Sodomia E Inquisicao No Brasil Colonial” da Lígia Bellini e o “Atos Impuros: A Vida de uma Freira Lésbica na Itália da Renascença” da Judith Brown. Este último livro é de micro história, mas tem uma introdução que fala bastante sobre a sodomia, a variação de penas entre sodomitas masculinos e femininos e a legislação (que deveria enquadrar os dois da mesma maneira). De qualquer forma, mesmo porque é apenas um pequeno texto para não-especialistas, a análise sobre as questões da sexualidade lésbica, e de sua invisibilidade, derivados desta questão histórica são um pouco mais complexos. Se você tiver interesse, em breve devo publicar a minha monografia na internet (justo para que ela sirva como ferramenta para estudiosos como você). Se você tiver interesse em se aprofundar mais sobre o assunto, ficarei feliz em ajudá-la.

    Gostaria, também, de receber informações sobre as suas pesquisas. me interesso demais pelo assunto e, talvez, pudéssemos conversar e trocar mais algumas referências sobre o tema.
    🙂

    Ahhhhhhhhhh, ótimo texto. O movimento lésbico precisa, sem dúvidas, de mais pessoas preocupadas com a sua história e com política, se quisermos sair, não só do armário, mas dessas sombras em que a sociedade nos aprisionou.

  8. Ei meninas! Então, eu conheço o trabalho do vainfas, fiz uma monografia sobre a criminalização da homossexualidade no Brasil, e tirando a Brown, eu li esses livros que vocês falaram. Não dava pra falar muito sobre isso de maneira aprofundada aqui, só pincelei pra falar da blogagem mesmo. Adorei saber das pesquisas de vocês, quero sim ler sua monografia. Esse assunto muito me interessa. Quanto a sodomia feminina eu sei que tem mais fontes do que os estudos com as lésbicas quando a homossexualidade era considerada uma doença…Sei que só num livro ‘Juquery: O espelho do mundo’ salvo engano, é que tem um relato sobre uma moça que foi presa e estudada num hospício e tal. E essa falta de fontes revela o desinteresse pela sexualidade feminina eu acho… Vamo trocar e-mail gente! erikapuc@gmail.com e quanto as minhas pesquisas, dá pra baixar aqui: https://inquietudine.wordpress.com/about/

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