O cheiro do armário ou notas sobre orgulho

(Foto: A querida transexual Maitê Schneider em uma parada gay em Curitiba )

Gostaria de agradecer a todos aqueles que divulgaram o meu post Gay? Eu? e especialmente àqueles que o comentaram, enviaram e-mails e deixaram mensagens no meu facebook. Recebi muitas mensagens de apoio de gente que compartilha dos mesmos problemas e inquietações.

Eu sempre quis escrever sobre a vida dentro do armário, porque foi uma parte da minha vida que me angustiou muito e me limitou de um modo que até hoje acho que não me recuperei. Acho que pouca gente sabe que contar pros meus pais sobre a minha homossexualidade não fez com que necessariamente eu saísse do armário.

Creio que se assumir pra família é o processo mais difícil pra qualquer homossexual, especialmente pelo medo da rejeição dos familiares. Não é qualquer um que consegue bancar essa rejeição, penso que tem que se estar pronto psicologicamente pra suportar qualquer reação familiar. É preciso estar ciente de que ao abrir a porta do armário você pode encontrar um inferno no qual terá de passar por privações que talvez você não dê conta no momento…

E depois que você abre essa porta tem que se decidir, ou você peita o mundo e chama pra si todas as conseqüências dessa escolha, ou volta pra dentro armário, machucado com a rejeição, e sabendo que armário vai ser pequeno pra você e que uma hora ele arrebenta de novo.

Sempre pensei que isso de sair do armário é meio parecido com a história de Adão e Eva. Com a grande diferença que sendo gay você sempre pode colocar a maçã mordida de volta na árvore, mas ela sempre vai estar lá mordida pra te lembrar que você experimentou e você não vai esquecer o gosto dela… E o seu Criador vai sempre te lembrar disso. Daí você continua no ‘paraíso’ com a brisa do inferno…

Por incrível que pareça eu fiz a coisa mais difícil que era contar pros meus pais, encarei o inferno, comi a maçã e o caroço (rs…). Mas acabei voltando pra dentro armário, não pro meu, esse já nem existia mais, mas pro armário da minha ex-namorada.

Ana nunca teve pretensões de contar sobre sua homossexualidade ou namoro pra ninguém, nem pra família ou pros amigos. Só um amigo dela sabia, isso porque ele era gay, e a irmã que descobriu lendo um sms meu ( se você quer continuar no armário, fica a dica, sempre apague sms, ligações e e-mails comprometedores, demorei pra aprender).

Hoje eu acho que nesses 6anos de namoro, ou confinamento no armário, o relacionamento foi se desgastando pela falta de demonstrações de afeto. Acabamos nos acostumando com aquele papel de amigas que nós representávamos. Beijos e abraços só no cinema, em casa (sem a presença dos nossos pais, é obvio), e no motel é claro. Chegou num ponto que mesmo em locais gays ou friendly nós não expressávamos afeto. Primeiro porque não devíamos, depois por costume. Não pra mim, mas pra ela parecia que só poderíamos ser lésbicas em ambientes fechados, nem era pelo fato do namoro ter que ser escondido dos pais. O problema era ser identificada como lésbica. O problema dela era se assumir pra si mesma.

Sempre falo isso e muita gente não me entende, é muito doloroso você querer tocar alguém que você ama e que te ama e ser rechaçado. Tentar segurar a mão dessa pessoa enquanto você anda por um shopping, e ela tirar a mão porque pode ter alguém conhecido olhando. Pelo menos pra mim é muito triste, pode ser muito pouco ou banal pra você que pode fazer isso e ninguém vai te olhar e te julgar, porque você é heterossexual, mas pra mim é um gesto que nos últimos 7 anos pude fazer muito pouco.

A Ana, por exemplo, sempre foi apresentada aos meus amigos como a Ana, a minha amiga. E isso era uma coisa que me magoava, me perturbava, eu tinha medo de que ninguém nunca soubesse do nosso relacionamento. E só no relacionamento atual que eu comecei a apresentar a namorada como namorada. Pode ser pouco. Mas pra mim era uma vitória da qual eu tenho muito orgulho. Estou me livrando do mofo e das castrações do armário. Parece pequeno, mas não é.

Tem uma cena no filme israelense que eu amo, Yossi and Jagger, que exemplifica bem esse meu medo do armário. Yossi e Jagger são soldados do exército israelense, eles vão pra uma zona de guerra no final do filme brigados, porque o Jagger queria que ambos saíssem do armário e contassem tudo pra família e pra todo mundo. E Yossi diz que não vai fazer isso nunca, que se ele quiser o namoro vai ser assim, do jeito que é, escondido. Jagger vai fazer um reconhecimento da área e pisa numa mina, e morre. Ai na frente de um soldado, Yossi começa a conversar com o moribundo, dizendo que ama, que vai assumir os dois, mas não adiantava mais nada Jagger estava morto. A cena do velório do Jagger é a cena mais triste que eu já vi na vida e que eu morria de medo de acontecer comigo, ninguém sabia do namoro deles, e todo mundo dirigia as condolências pra família e pra uma menina lá que eles achavam que namorava o Jagger. O Yossi foi privado de sofrer a morte do amado como amante. No velório era apenas um soldado que estava ali pra prestar as condolências a família de outro soldado.

Situações como essa de não reconhecimento da homoafetividade e do próprio relacionamento acontecem de várias formas a todo momento, a do Yossi e do Jagger chegou num estágio crítico, a morte física. Infelizmente muitos homossexuais estão fadados a morte social.

Conversava com a Bani esses dias numa mesa de boteco sobre essas pequenas discriminações cotidianas, e do quão cruéis e insuportáveis elas são. E chegamos a grande conclusão de que o mais importante é que gente já sabia que seria assim quando abriu a mal fadada porta do armário, já sabíamos as regras, mesmo que não concordássemos com elas, e pagamos o preço cotidiano de sermos gays numa sociedade heteronormativa. Pagamos por enfrentar essa ordem, levando balãozada de água em plena a Av. Afonso Pena porque estava abraçando a namorada (como aconteceu com ela, nessa mesma noite). Ou pedrada. Ou cusparada. Ou surra. Ou morte. Ser chamado de aberração por sua mãe, pela mãe da sua namorada, ou por um estranho na rua. Ser gay é correr o risco de ser expulso de um estabelecimento comercial por demonstrar afeto. Ser gay é ter seus direitos civis cotidianamente aviltados pelo próprio Estado. Ser gay é sofrer isso tudo e ainda poder dizer: eu tenho orgulho de ser quem eu sou e nada vai mudar isso. Não é fácil. Mas alguém disse que seria?

Ser gay não é uma questão de escolha e ser discriminado também não o é. Mas se assumir enquanto gay é ter consciência de que você vai ser vítima de violência física ou verbal, hora ou outra, por um estranho ou por um ente amado.

Recebi e-mails de pessoas que preferiram não abrir a porta do armário e encarar o calvário que é se assumir. E que também não estão dispostos a viver a sua homossexualidade de maneira velada. Preferem a abstinência, e isso me choca muito. E me entristece acima de tudo.

Acredito que a luta do movimento gay vai muito além da conquista de direitos civis, é uma luta pelo direito de ser quem se é. É uma luta em prol do exercício pleno da personalidade humana, é uma luta contra a limitação ou castração de uma vida plena.

E é uma luta cotidiana, é sua, é minha, é de todos nós que queremos uma vida digna.

—————

Querido leitor, depois que você tomar consciência disso e tiver orgulho de si as coisas ficam mais leves. E saiba que o inferno de sair do armário pra família passa. Cedo ou tarde, as coisas vão melhorar.😉

“Desejo uma fé enorme. Em qualquer coisa, não importa o quê. Desejo esperanças novinhas em folha, todos os dias.Tomara que a gente não desista de ser quem é por nada nem ninguém deste mundo. Que a gente reconheça o poder do outro sem esquecer do nosso. Que as mentiras alheias não confundam as nossas verdades, mesmo que as mentiras e as verdades sejam impermanentes. Que friagem nenhuma seja capaz de encabular o nosso calor mais bonito. Que, mesmo quando estivermos doendo, não percamos de vista nem de sonho a ideia da alegria. Tomara que apesar dos apesares todos, a gente continue tendo valentia suficiente para não abrir mão de se sentir feliz. As coisas vão dar certo. Vai ter amor, vai ter fé, vai ter paz – se não tiver, a gente inventa!” – Caio Fernando Abreu

22 Respostas para “O cheiro do armário ou notas sobre orgulho

  1. “E é uma luta cotidiana, é sua, é minha, é de todos nós que queremos uma vida digna.”
    Belíssimo!

    Adorei o texto. Super sincero, materializa muitas questões que considero essenciais.
    É de emocionar qualquer um que luta para poder ser, para não ser tolhido de ser quem é. Isso me lembra da razão de lutarmos, seja qual for a causa: viver, no sentido mais vivo da palavra.

    A partir de agora, passo a acompanhar o blogue.

    Grande abraço!

  2. Adorei o texto. Concordo completamente com ele mas o irônico que eu ajo totalmente o contrário. Eu não saí do armário ainda nem me permiti ter relações com outros homens no meu caso. E eu cobro diariamente que outros homens se assumam, tentando convencê-los, mas eu mesmo não faço isso.

    Eu não sei… É difícil para mim. E eu sei que não seria tão difícil como foi para você… Acho que o meu medo é, que depois que eu sair do armário, eu não aceitar nenhuma opinião que eu ache que prive minha vida. Meus pais irão brigar, e eu vou achar um absurdo, e vou querer me matar…
    Porque qualquer tipo de pensamento “burro” irá me fazer sentir pior.

    Outra coisa, eu sou muito extremista, se meu pai não me assumir, aí que eu iria esfregar minha homossexualidade na cara dele e nos amigos dele, e ele iria me odiar por isso, mas eu não posso tentar aceitar o lado dele, entende?

    Eu acho que a minha mente já evoluiu tanto, mas minhas escolhas não. Eu sei exatamente como agir, me aceitei como ateu e gay, mas não tenho coragem de enfrentar as coisas que virão pela frente. Sou covarde. E eu fico impressionado com a minha própria covardia.

  3. Adorei o texto. Só não concordo com esta ideia de sair do armário. Não existe armário. Falar para as pessoas que você gosto de uma outra pessoa do mesmo sexo é muito estranho. Prefiro falar que gosto de alguém (um ser humano). A sociedade e nem nossos pais devem ter o privilégio de opinarem sobre de quem gostamos ou deixamos de gostar. Essa coisa de assumir-se “gay” é terrível. Nós somos seres humanos, ninguém tem o direito de dar nomes ao nossos sentimentos. Exemplo: Quando eu tinha 7 anos, mantinha relações sexuais com um amigo meu. Não sabíamos o que era gay, homo, bi, tri, trans, etc. Sempre nos consideramos garotos. Hoje, se eu quiser manter uma relação com outro homem, vou ter que me assumir, gay? Esse negócio de assumir é o extremo do preconceito que uma pessoa pode fazer com ela mesma. Chega de rótulos ou armários.
    Eu mesmo, gosto de homens e mulheres, e namoro uma mulher. Sou considerado Bissexual. Sou considerado por quem? Que decidiu isso? Quem a sociedade pensa que é para conceituar um sentimento meu? Não temos que sair do armário, porque nunca entramos em armário algum.

    • Mas, se você esconder isso da sua “namorada” você está agindo errado. Rótulos, não! Mas Orgulho de ser quem é, sim! Não vejo problema em eu namorar uma mulher, mas ela tem que saber que já tive relações com homens também. É injusto para ela, é ridículo homens que mantem sua farsa de hétero com outras mulheres.

      Acho que a sociedade está errada. Não deveríamos nos assumir e sim ter escolhas. Exemplo: Toda mãe trata um filho para ser Hétero. Mas não deveria ser assim. Deveria mostrar desde criança que ele pode ser os dois, e que ela vai amar do mesmo jeito. Isso é belo. Não ia ter o assumir.

      Olha o filho da Gwen:

      Ele pinta as unhas e veste como quer… E ela deixa, ela diz que ele tem que fazer o que o deixa feliz. Ela não vai impor ele a vestir como “homem” se isso não irá fazer bem a ela…

      Outra coisa que odeio é quando diz: Sou hétero mas pego homem também…

      Eu prefiro dizer: sou Gay, mas pego mulheres também. Mesmo eu já tendo namorado muito mais mulheres do que homens..

      É isso, obrigado.

      • Na verdade não escondo da minha namorada. Ela sabe que eu gosto de homens também. E namoramos a 7 anos. A relação é normal. Só que eu disse para ela: se um dia eu me apaixonar por alguém, pode ser por homem ou mulher, vou contar pra ela e iremos terminar. A mesma coisa eu peço para ela. E não fico saindo com homens só por que gosto de homens. Também não saio com mulheres por que gosto de mulheres. Tenho uma namorada. E por enquanto sou feliz com ela.
        Isso que eu quero dizer: não importa de quem você gosta (H ou M), isso não deveria ter rótulos ou esteriótipos.
        Minha namorada já me perguntou se iria contar para minha família. Respondi: Contar o que? Que eu gosto de homens e mulheres? Por que? Não tenho nada para contar. Quem gosta sou eu, não eles. Se um dia eu terminar com ela e ficar com um homem, simplesmente vou falar que namoro tal pessoa (nome, não sexo). Simples! Não escondo nada. Gostar de pessoas do mesmo sexo é mais do que natural. E esses rótulos tornam uma coisa natural em anormal. Ex: Ontem gostava de mulher, a sociedade rotula de Hétero. Hoje gosto de homens, a sociedade rotula de Gay. Isso não é estranho? Como eu disse na outra resposta: mantinha uma relação aos sete anos com meu melhor amigo, sem saber sobre rótulos. Aí eu pergunto: Naquela época eu estava dentro do armário ou fora?
        Destrua o armário imaginário. Sentimentos não tem rótulos.
        É isso!
        Outra coisa: Apoio qualquer luta a favor dos direitos civis, de homens e mulheres. Gay não existe. Homens que gostam de homens, continuam sendo homens, isso serve para mulheres também. Parece que somos uma coisa estranha, de outro mundo. Não somos e não estamos dentro do armário. Se gosto de homens, tenho que ter o direito de casar com quem eu quiser. Não importando o gênero.
        Acho que o grande problema, são os rótulos, se eles não existissem, o mundo seria melhor e sem guerras. Héteros, gay. Negro, Branco. Feio, bonito, etc. Chega de dualidade.

  4. sempre suspeitei que esses fossem os sentimentos dos gays e lésbicas, por isso luto pelos direitos de vcs amarem. não acho justo um mundo onde não se possa simplesmente amar. não senti isso, ou passei por isso pq sou hétero, mas leio seus post e tento imaginar a extensão dessas pequenas dores cotidianas e tenho que lembrar que existe gente tão estúpida no mundo que é incapáz de se colocar no lugar dou outro e enxergar o preconceito, a homofobia. te admiro e vc vai longe, garota. bjs. @bete_davis

  5. erika, eu namorei mt tempo uma mulher casada, e eu a amava mt, e saíamos por aí, e não era possível ter nenhum contato físico na rua, e as vezes eu esquecia, me perdia no amor, sabe?, e fazia um gesto arrebatado, pegava na mão, e era rechaçado subitamente e, mesmo eu sabendo e entendendo, era ruim e doía. então, não, não estou comparando o meu pequeno contratempo á luta dos gays, mas queria dizer que sim, esse hetero aqui entende bem a dor de não poder encostar na mão de quem se gosta no shopping.

  6. Esse cheiro de armário por mtas vezes me enjoa… mas acho que ainda não estou preparada psicologicamente pra sair dele… não sei se estou pronta pra lidar com aquilo e aqules que posso perder por sair desse armário… =/

    Os primeiros passos eu ja dei, ja assumi pra mim mesma quem sou, apesar de ainda me incomodar quando me vjo como bissexual, mas tb pudera, cresci ouvindo das pessoas q “bissexualidade é putaria, ou se sente atraido por um ou por outro, sentir atração pelos dois é coisa de gente não sabe que quer…” e mais do que ouvir hoje em dia tem mta gente vivendo essa frase ¬¬’

    Mas enfim, tudo ao seu tempo.. eu ja coloquei a cabeça pra fora do armário uma vez e sei as consequencias que vivi e por não estar pronta para encara-las voltei pro armário como se nada tivesse acontecido, como se tivesse sido só uma fase… mas agora sair por inteira desse armário ainda exige mto de mim que ainda não estou pronta pra dar…

    Obrigada pelo seus posts, eles me ajudam mto a assumir e aceitar quem sou… e olha que eu não tenho mta paciencia pra ler textos grandes na internet rs mas vc conseguiu prender a minha atenção de uma forma q sempre q tem post novo venho aqui ver!

    Sem mais
    Mari

  7. O que me irrita sobre o armário é que não há uma, mas várias saídas do armário. Você tem que sair para a família, os amigos, a escola, o trabalho e por aí vaí. A cada novo ambiente o cheiro de armário retorna e você, por mais assumid@ e pintos@ que seja, se sente cobrado para fazer mais uma saída. As pessoas podem até já saber, só de olhar pra você, mas elas esperam e cobram que você fale, sempre com aquelas indiretas que de discretas nada possuem. Isso me cansa as vezes sabe, fica parecendo que eu tenho uma dívida com a sociedade e devo pedir perdão a cada pessoa. Eu cansei, cansei de armários e até de sair do armário (e olha que eu já explodi o meu algumas vezes).

  8. Érica,
    Você é especial, é incrível. Seus posts mexem comigo, esse principalmente me tocou. Eu vivo ambas as situações, eu estou no armário para minha família, fora dele para amigos, indiferente no trabalho; minha namorada saiu do armário para a família tem um mês. Que sofrimento! Sofremos e sofremos tanto que eu nem me atrevo a me assumir agora pra minha família. Sair do armário é algo que desgasta você, o outro, e a relação. Mas ficar no armário também. Você descreveu com propriedade a dor que é não poder ser você, ser natural com quem se ama. Hoje nós optamos por não dar nem selinho na rua, só pegamos na mão, damos abraços, por causa do preconceito, da reação das pessoas. Já passamos por coisas muito difíceis, hostis, e sentimos medo de sermos mais hostilizadas (medo da violência). Vejo que o pior armário é o que criamos pra nós, esse medo de ser você, esse medo de ser homossexual. Eu passei boa parte da adolescência e do inicio da vida adulta tentando arduamente me encaixar, ser hetero, como sou bi, pensava “seu eu me sinto atraída por homens também porque vou ficar com menina”. Me esforçava ao máximo pra dar certo com um cara, e o problema era esse “me esforçar ao máximo”. E vivia insatisfeita, triste, frustrada, e era infiel (estava sempre ficando com meninas). Até que saí do armário pra mim. Quando me dei à chance de realmente me envolver com uma menina, me dei à chance de ser feliz. E foi e está sendo incrível! Uma amiga há uns meses me disse “eu nunca te vi tão você , tão feliz”. E sair do armário pra mim, foi isso: ser eu, ser feliz. Eu seria muito mais feliz se as pessoas pudessem ser indiferentes a minha felicidade, e parassem de se achar no direito de achar alguma coisa sobre os meus direitos.

  9. Nem sei por onde começar meu comentário!

    Tenho um amigo que não pisa na Augusta(SP), porque da última vez que o fez, apareceu uma dezena de skinheads devidamente “armados” e que ele teve que correr para não apanhar, pois ele estava na frente de um bar GLS (na época, era esse o nome dado), cheio de amigos gays e lésbicas e todo mundo correu.
    Quando ele me contou isso, ou quando alguém me conta algo do tipo, primeiro eu penso “Ah, vc só pode estar brincando!” e depois fico indignada que exista esse tipo de coisa. Parece que será que nem como é com as mulheres: anos e anos de luta por direitos iguais e ainda assim, há suas diferenças e um preconceito, cheio de piadinhas prontas.
    Se eu fosse gay, não sei se sairia do armário não. Exatamente pelo fato do medo de pisar na rua. Se fosse “só” (com aspas BEM grandes) o preconceito verbal, eu pensaria…Mas essa violência é absurda. É horrível que isso aconteça.
    E tem pais que tem medo dos filhos serem gays…
    Eu ainda não penso em filhos e me considero nova para isso (24 anos), mas se eu tiver um filho gay, ele será tão amado quanto um filho hétero. É muita hipocrisia dos pais querer ter esse tipo de controle na vida dos filhos, do tipo ‘vc é homem, então só pode mulher’.
    Tem muita coisa errada, muita visão ‘torta’ que deve ficar reta, deve ficar claro.
    E se não bastasse o preconceito, a falta de conhecimento das pessoas, tem também (algumas, para não dizer quase todas) religiões que pregam todo tipo de coisa absurda e acaba servindo de alimento aos “fiéis” desprovidos de inteligência.
    Enfim.
    É uma grande luta…mas tem que ir em frente, até que seja uma situação que sair na rua não seja uma ameça! E eu acredito e de fato espero que estejamos no caminho certo, mesmo com tudo errado que acontece!

  10. Há quase 10 anos, minha mãe descobriu meu relacionamento com uma menina. Ela, que tinha grandes amigos gays, não me aceitou. Não me respeitou. Me disse coisas que desejo que ninguém mais neste mundo ouça. Meu irmão tinha morrido tragicamente algum tempo antes dessa descoberta. Acreditava que pra qualquer mãe, a pior dor do mundo era perder um filho, mas estava enganada. Minha mãe me disse e repetiu algumas vezes que preferia me ver num caixão, me enterrar… (sim, usou essas palavras). Acreditei que ela arrependeria disso, que um dia ela iria me aceitar, mas uma década depois, isso ainda não aconteceu. Na época, eu era muito jovem e tomei a decisão de voltar para o armário, pelo menos para ela. Não deixei de manter relacionamentos, nem de ter meus amigos gays, mas nunca mais eu e minha mãe tocamos nesse assunto. Simplesmente, mesmo dentro da mesma casa, nos afastamos. Ela não conheceu e não conhece meus amigos. Não participou dos momentos mais felizes e mais tristes da minha vida. Hoje ela sabe pouco de mim. Penso que não me reconhece, não sabe dos meus valores, não sabe dos meus sonhos. Gosta da minha namorada, mas trata-a como se fosse apenas uma amiga. Faz insinuações que deveríamos arrumar namorados e outras inconveniências. Fora da minha família, não tenho armários. Meus amigos héteros, meus colegas de trabalho, meu chefe… todos sabem – e respeitam – que sou gay. Mas no fundo, desenvolvi um medo exagerado desses diversos “outings” que temos na vida. Medo da rejeição. Faço cobranças para mim mesma de ser feliz apesar de tudo, apesar da torcida contra. Tenho conseguido…

  11. Pingback: Chamada Blogagem Coletiva: Dia da Visibilidade LésbicaBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas·

  12. Érika, lindona! Você não imagina quantas pessoas vieram me falar sobre as suas postagens só nessa última semana. Hoje consegui parar pra ler esse post e ainda consegui ler quase todos os comentários. O que tá acontecendo aqui é mesmo incrível! Espero que continue sendo um espaço pra gente poder se (re)pensar! Tô vendo que tá fazendo bem pra muita gente… e hoje fez bem pra mim! Brigaduuu! Bjaum!😀 Amanhã tamos junt@s na caminha das lésbicas e casa do Beto depois, né?

  13. Pois sabia que, entre tantos que dizem “não” ao homossexuais, existem aqueles que dizem “sim” ao direito de a pessoa ser o que quiser ser! Eu estou entre esses úlitmos, mesmo sendo hetero, viu?
    Abraço forte.

  14. Querida, vou deixar aqui o meu relato:

    Em 2008 cheguei em SP para morar, vim trabalhar com uma coisa que gosto e com pessoas muito especiais, saí la de Pernambuco (sou natural de uma cidade 30km do Recife, pequena é verdade, mas próxima o suficiente da capital pra ter uma vida “esclarecida”, vamos assim dizer) cheguei em sumpaulo, e o choque cultural me pegou de jeito. Nunca pensei que viveria aquilo e me veria/ ou sentiria estranho, por estar numa cidade “mais permissiva” e, vamos dizer, friendly, mas aconteceu… aprendi a viver e a conviver e cá estou.

    Algum tempo se passou, comecei a me envolver com um carinha que conheci no Twitter (estou no twitter desde 2007, então conheci praticamente todos os meus amigos paulistanos na rede e assim vamos…) saímos algumas vezes apenas como amigos, apresentei ele pra outros amigos e depois de não da certo a história dele la, começamos a nos envolver… passei exatamente pelo mesmo que vc: Entre 4 paredes eu era a pessoa mais especial do mundo, eu era o amor da vida inteira, uma pessoa especial. Na rua eu era um estranho que não podia tocar, chegar perto ou se quer dirigir a palavra direito. Aquele armário me sufocava.. a melhor parte era ele chegar pros meus amigos (naquele momento, nossos amigos em comum, pq eu apresentei todos pra ele.. que não conhecia ninguém na cidade…) e dizer: O Hilário/Metheoro é um louco! Nunca fiquei com ele…

    Águas passaram por baixo da ponte, coisas dolorosas aconteceram, xingamentos públicos e ameaças físicas (por parte dele)… 3 anos depois, estou aqui, as voltas com uma mesma história. Com os mesmos dramas de pessoas que estão no armário, ou semi-armário e tem medo de expressar suas emoções. Mais uma vez me envolvo com uma pessoa, que até então não era assumida, que até então não tinha quase amigos (até que eu os aprensentei), que entre 4 paredes me ama e quer todo o meu mundo pra si… mas fora delas é estranho, relapso, grosseiro e mentiroso.

    Não sei se é uma questão de “Karma” ou é que eu só gosto das pessoas erradas, mas cansei… sabe? Não quis bancar pra ver mais uma vez as ameaças partindo de uma pessoa que eu gosto, cansei das mentiras, cansei. Vejo o armário, ou reações homofóbicas, partindo dos próprios gays muitas vezes. O Armário reconhecido por mim (ou por você) como clausura, pra muita gente é armadura e fortaleza. Um porto-seguro… não sei se tenho paciência, ou quero, conviver com pessoas que estejam dentro dele nos próximos dias e anos, sabe? Não sei…

  15. Olá adorei seu texto.Putz o q falar né é uma situação q dar medo e emoção a todo momento.Mas lendo seu texto agora tenho mais q a certeza q fiz a escolha certa q foi de mim assumir para mim mesma e aos poucos se assumi para essa sociedade cruel e amável ao mesmo tempo. Parabéns pelo blog, como posso de achar no face???

  16. Erika querida.. entendo seu pensamento… e torço para chegar um dia em que o sonho de um mundo igual.. respeitando-se a diversidade que somos…. não sera mera utopia…

    Fiquei honrada de que postasse minha foto num post tao lindo e com tanto sentimento…

    Já estou divulgando em todos os meus faces e no meu site.. parabens querida..:)

    • Ô linda, você por aqui!!! Que delícia! Te admiro demais, sua história de vida, sua força! Você me inspira muito nessa caminhada!

      Obrigada pela divulgação!

      E vamo que vamo, nossa luta é todo dia! =***

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