Filmes gays tem final feliz?

De acordo com Frederico Fellini, o cinema é um modo divino de contar a vida. Faço minhas as palavras do cineasta italiano. Sou apaixonada por cinema desde criança e nas fases mais difíceis da minha vida busquei refúgio em alguma sala de cinema ou na quietude do meu próprio quarto. Alimentei a minha alma com novos sonhos que muitas vezes só o cinema é capaz de proporcionar.

Cresci assistindo filmes de John Hughes, George Lucas, Steven Spielberg, dentre outros nas sessões da tarde da vida. E como qualquer pessoa da década de 80-90 e que assistiu filmes desses queridos cresci achando que eu poderia ser o que eu quisesse ser e que curtiria a vida adoidado… E ainda acho…

Passei grande parte da minha infância e da adolescência na segurança da minha casa assistindo filmes, porque eu não conseguia ter contato com outras pessoas sem surtar. Mas uma coisa que sempre me inquietou no que diz respeito a esse modo divino de contar a vida é que eu nunca me via ali representada. Nunca tinha visto um filme sobre a história de alguém que estivesse na mesma situação que eu em relação a sexualidade, a homossexualidade.

O primeiro filme com temática LGBT que vi na vida foi ‘Será que ele é?’ com Kevin Kline e Tom Selleck por volta de 1998-1999. Eu que já era cliente assídua de locadoras de filmes, alugava aproximadamente 10-12 filmes por semana, fiquei maravilhada com essa comédia que finalmente falava de algo que me interessava sobremaneira…

Ao longo dos anos fui assistindo menos filmes, ensino médio e aquela loucura toda, aquela preocupação com vestibular, mas ainda assim essa falta de representatividade me incomodava… Por volta de 2006 a internet aqui em casa ainda era discada, então não dava pra baixar nada e na locadora não conseguia encontrar muitos filmes com temática LGBT, os que tinham (pornôs) não me interessavam (ainda). Descobri uma menina numa comunidade do Orkut que vendia os DVDs que eu tanto procurava. Daí entraram no meu mundo The L Word, Yossi and Jagger, Fucking Amal, Better Than Chocolate, Loving Anabelle, Lost and Delirious, Meninos não choram e por aí vai.

Saciada essa primeira inquietação pela falta de filmes com temática LGBT, fui surpreendida por um novo desassossego, que sinceramente eu não esperava, visto que fui moldada em grande parte pelos filmes de Hughes, George Lucas,  Spielberg. Os filmes em que eu tanto ansiava ver histórias de vida similares a minha sendo contadas, mesmo que modo surreal, não tinham ‘happy end’ ou ‘e viveram felizes para sempre’.

E foi ai que percebi que o que eu tanto desejava tinha se realizado, o cinema finalmente me representava, não do jeito que eu imaginava, mas representava. Os filmes que buscam tratar da temática LGBT retratam fielmente muitas histórias parecidas com a minha e com a de muitos LGBTs espalhados pelo mundo.

Meu namoro de 6anos tem muito, mas muito mesmo, da história de Lost and Delirious e muito da história de Yossi And Jagger (Felizmente não os mesmos finais). O fedor do armário que tanto me adoentava e limitava foi muito bem retratado nessas películas.

Com exceção de Imagine Me And You (Lindo, fofo, sonho e perspectiva pro namoro atual, todo mundo tem que ver pra se encher de amor e esperança rs…) e Better Than Chocolate, pouquíssimos são os filmes que tem final feliz… Eu sei que a vida é real de viés, mas essa falta de happy end me incomoda muito… Não te incomoda?

Ainda bem que projetos como ‘It Gets Better’ e o ‘Eu não gosto dos meninos’ nos dão outra perspectiva de happy end, na vida real. Ser gay, se assumir gay, e bancar isso não é fácil. E não é pra ninguém. E a gente sofre muito durante o processo de aceitação, especialmente do nosso processo de aceitação. Quando a gente se aceita, se entende e se ama, encarar as vicissitudes da vida é mais fácil, talvez até mais leve. Porque a gente encara a vida de outro modo. É adotar o ‘eu vou ser feliz custe o que custar’ ou ‘terei sim aquele happy end mesmo que me digam que não é possível’.

Ser quem a gente é dá trabalho, infelizmente. Mas vale a pena, quando a gente se olha no espelho e se percebe inteiro e orgulhoso de si, de ser quem a gente verdadeiramente é, e não aquele personagem vazio que os outros querem que sejamos.

Seja nos filmes saudosos de minha infância ou nos filmes de Eytan Fox (The Bubble, Yossi and Jagger) e Oliver Parker (Imagine Me and You) fica claro que por mais trabalhoso e doloroso que seja, não poderíamos ser felizes e inteiros de outro modo senão sendo aquilo que realmente somos.

Daí que como não tenho mais nada pra fazer nessa vida (mentira) resolvi que vou postar toda semana sobre algum filme LGBT, com ou sem final feliz… Aguardem… E me indiquem filmes também.

Essa semana ainda postarei sobre Yossi And Jagger e The Bubble.😉

20 Respostas para “Filmes gays tem final feliz?

  1. vi um filme com essa temática que me marcou muito.
    nao sou gay, mas os conflitos familiares – que todos estamos sujeitos – somados as figuras dos pais, e ainda por cima descobrir-se gay (ou varias outras escolhas que decepcionam seus pais por si só).

    era C.R.A.Z.Y o nome do filme. e é só o que lembro.
    caso o encontre, me conte o que achou.

  2. Érika, eu me lembro de final feliz no Go Fish (não lembo o nome em português, acho que é Par Perfeito), mas tem muitos anos que eu assisti isso, deve ter sido no começo dos anos 90 hahahaha. Mas me lembro de ter achada bem legal, bem divertido e bem sem muito drama, não sei se vc já assistiu..

  3. O único filme sobre esse assunto q assiti até hoje foi Lost And Delirious, que eu ganhei de uma amiga (pq eu tb não achava nenhum filme com esse tema na locadora)… e eu joguei ele fora depois de um tempo pra tentar me livrar das coisas q me faziam lembrar q eu gostava de mulher =S
    Hj me arrependo de ter jogado ele fora… apesar do final triste, é um bom filme… mas enfim… sou super a a favor de vc abrir um espaço pra falar desses filmes aqui pq realmente é mto dificil de encontra-los… =D

  4. interessante vc expor estes detalhes do dia-a-dia : “eu não me via ali representada” . Acho q estes incomodos pequenos, mas q vão se amontoando, passam tão batidos p quem tem a vida toda programada p seu perfil hetero…

  5. Serve um livro? Não sei se você conhece, chama-se “Carol” em português e em inglês, “The Price Of Salt”. Foi escrito pela Patricia Highsmith no começo dos anos 1950, mas ela teve que usar um pseudônimo para conseguir publicar. Conta a história de um casal de lésbicas e é tido como o primeiro romance do gênero a ter final feliz. O prefácio da edição que eu li dizia como tinha sido a reação do público na época: apesar do livro ter sido muito polêmico, a Patricia Highsmith recebeu muitas cartas de homossexuais muito agradecidos, felizes não só por terem lido uma história gay, mas uma história gay com final feliz.

    • EU já li Carol.
      Indico tb a vcs o livro DUAS IGUAIS de Cintia Moscovich
      Érica, dá uma olhada nesse livro.Tri interessante!

        • Érica ,vc leu Carol ou DUAS IGUAIS?
          Eu li os dois, mas ”DUAS” ,apesar de triste, achei belíssimo, muito bem escrito, uma poesia!

            • Caraca! É a primeira vez que eu encontro alguém que leu esse livro!
              Eu tb achei muito lindo! Inclusive comprei pra presentear umas amigas mas elas nem curtiram tanto como eu…rs
              Vou comprar novamente para ter em casa.Muito belo….

              ….já que o post é sobre final final de filme/livros…
              I can’t think straight -conhece esse filme?

  6. Erikaaaaaaaaaaaa!
    Acabei de baixar o filme KYSS MIG !
    Maravilhoso!
    Dá uma olhada por q estão derrubando os links!

    MIA (Ruth Vega Fernandez) e Frida (Liv mjones), ambas na casa dos trinta, se encontram pela primeira vez na festa de noivado seus pais. O pai de Mia, Lasse (Krister Henriksson), está prestes a se casar com a mãe de Frida, Elizabeth (Lena Endre). A filha de Lasse , Mia, não o visitou em anos e chega com seu namorado, Tim (Joakim Nätterqvist), com quem ela está prestes a se casar.Enquanto Mia e Frida começam a se conhecer, fortes emoções começam

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