VOZ ENTREVISTA: Érika Pretes

A entrevista que dei pro jornal Voz Acadêmica da faculdade de direito da UFMG http://issuu.com/tiagoviana/docs/jornalvozjulho2011 ^^

Érika Pretes tem 24 anos, é advogada, militante do movimento LGBT e pesquisadora de direitos humanos. Atualmente cursa especialização em Direito Público pela PUC Minas. Desenvolveu duas pesquisas que tratam da homofobia e da homossexualidade, tendo sido orientada pelo professor Dr. Túlio Lima Vianna. Participa do Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual (GUDDS), que atua na UFMG.

VOZ – Quando você descobriu que não era igual às outras pessoas?

Érika - Acho que sempre me senti diferente. Sempre tive mais afinidade com as meninas e nunca fui interessada por meninos. Quando tinha 12 ou 13 anos, todas minhas amigas namoravam meninos; mas eu não tinha esse interesse. Eu gostava mais de conversar com elas. Só descobri e entendi, realmente, minha homossexualidade por volta dos 18 anos.

VOZ - Nesse sentido, como você lidou com a homossexualidade ao longo da infância e da adolescência?

Érika Não pensava muito nisso durante a infância. Na adolescência, isso começou a me incomodar, pois me sentia  um pouco diferente das outras meninas. Afinal, elas estavam namorando, enquanto eu não entendia por que não me interessava por meninos. Por volta dos 17 ou 18 anos, me interessei por uma menina e começamos a namorar. Foi um processo difícil e complicado; não só a aceitação dos meus pais, mas a minha também. Minha mãe, quando  descobriu,  ficou perplexa. Não conversamos por quase 1 ano. Ela olhava pra mim e chorava, pois queria que eu mudasse. Pensando que a Igreja talvez fosse a solução, cancelou minha matrícula no curso onde eu estudava (onde também estudava a menina que comecei a namorar) e passei a frequentar mais a Igreja com ela. Porém, minha mãe viu que isso não resolveria a situação.

VOZ - Você já sofreu muito preconceito por causa da sua orientação sexual?

Érika - Sim. Recentemente, sofri homofobia na rua. Estava dentro do carro com minha namorada e a beijei. Alguns garotos que saíam de uma escola nos viram. Começaram a rir e a nos chamar de “sapatão”. Já estamos, infelizmente, acostumadas com tais xingamentos de pessoas que passam nas ruas. Mas foi então que os garotos se aproximaram e atiraram uma pedra no vidro do carro. Por sorte, minha namorada, que estava sentada no banco de passageiros, não foi atingida. Depois, os meninos acabaram fugindo. Acho que esse foi o momento mais chato que já vivenciei; a primeira vez em que fui vítima de agressão física.

VOZ - E que tipo de manifestação preconceituosa é mais recorrente?

Érika - Não sei dizer qual é a mais recorrente, porque hoje lido bem com essa questão em qualquer lugar onde eu esteja com a minha namorada. Assumi minha homossexualidade há cerca de 7 anos. No início, era difícil expressar afeto em público, pois sentia que as pessoas ficariam olhando. Tenho amigas que já foram expulsas de bares em Belo Horizonte. Então, acho que acabamos internalizando o preconceito e ficamos com medo de expressar afeto em público.

VOZ Então, você considera que se trata mais de um preconceito interno do que externo?

Érika - Não é interno. É mesmo uma  forma de se proteger.

VOZ - Há quem diga que os atos de afirmação homossexual não fazem sentido, já que, se não há “parada” de orgulho heterossexual, por exemplo, também não deveria haver a de orgulho gay. O que você pensa sobre as manifestações de afirmação LGBT?

Érika - Eu as apoio integralmente. Não faz sentido ter orgulho de ser branco ou heterossexual em uma sociedade onde isso é aceito. No meu caso, acho que tenho orgulho de ser lésbica porque eu já vivi o preconceito. Sofri discriminação na Faculdade; meus amigos, quando descobriram que eu era homossexual, ficaram cochichando. Já me perguntaram se eu era lésbica, como se isso fosse importante. Ninguém pergunta se você é heterossexual ou quando você se descobriu heterossexual; na sua adolescência, ninguém lhe diz “isso é uma fase que vai passar”. Quando se é heterossexual, isso não acontece. Por outro lado, quando se é homossexual, é preciso afirmar a todo tempo a sua qualidade de ser humano digno de respeito. A minha homossexualidade, infelizmente, incomoda e afeta outras pessoas. Então, acho que as “Paradas Gay” servem para mostrar que existimos e temos direitos. Para quem nunca sofreu preconceito, não faz sentido, em uma sociedade como a nossa,  ter orgulho de ser quem é. Deve-se ter orgulho, por exemplo, de ser mulher, de ser negro. Não faria sentido uma camisa com a estampa “100% branco”.

VOZ - Você considera que é mais fácil ser aceita como homossexual em um ambiente de classe média e acadêmico?

Érika - Com certeza. A homossexualidade não tem muito espaço em classes mais desfavorecidas. Eu venho da periferia; moro na região de Ribeirão das Neves. Até  começar a me preparar para o vestibular, vir para Belo Horizonte e conviver com outras pessoas, nunca tinha ouvido falar em homossexualidade. Em minha época, não havia personagem gay em novela. Eu realmente não sabia o que era homossexualidade. Penso que, em classes mais baixas, falta espaço para um diálogo, para se manifestar e se expressar.

VOZ - O “kit-gay”, como vem sendo chamado o material de conscientização anti-homofobia criado pelo MEC, gerou grande polêmica recentemente. Como você analisa a maneira com que se deu o debate em torno do tema? O “kit-gay” é pertinente?

Érika – Eu acho que ele é pertinente. Pesquiso homossexualidade e homofobia há cerca de 5 anos. No último ano, participei de uma capacitação do Núcleo de Direitos Humanos da UFMG e dei aula sobre homofobia e Estado laico para alguns professores de Ensino Fundamental e Médio. Eles relatam que não conseguem lidar com a questão da homossexualidade em sala de aula. Isso se deve muito à falta de capacitação dos professores e de material sobre o tema. Então, penso que o “kit anti-homofobia” é fundamental para romper o silêncio que paira sobre a homossexualidade. Não se fala sobre homossexualidade nas escolas, em especial no Ensino Fundamental e Médio. A capacitação dos professores para trabalhar com o tema também é fundamental; não basta fazer um “kit” e lançá-lo nas mãos dos professores, esperando que eles tratem disso sem capacitação técnica.

VOZ - Como você analisa a decisão do STF de estender aos homossexuais os mesmos direitos que têm os casais heterossexuais?

Érika - Fiquei muito feliz e acho que a decisão demorou muito. Estamos em 2011 e ainda discutindo esses direitos. Há um projeto da Marta Suplicy, em trâmite há cerca de 15 anos, sobre a união estável; até hoje, essa questão não avançou no Legislativo. O assunto sempre foi recorrente no Judiciário, e, finalmente, o STF decidiu. Foi uma iniciativa da Procuradora Geral da República Deborah Duprat, por meio de ADI. Percebemos que o Judiciário vem avançando. O Executivo também tenta avançar com o programa do governo federal “Brasil sem homofobia”. Já o Legislativo, sempre tarda na conquista desses direitos.

VOZ – Mas já há juízes que se recusam a reconhecer a união homossexual. Seria essa uma questão fraturante para a sociedade e para o Direito?

Érika Sinceramente, não sei. Acho que a posição do juiz de Goiás que negou a união homossexual é minoritária, porque os homossexuais já conseguem efetivar seus direitos através do Judiciário, que atende suas demandas já há algum tempo. Eu vi uma entrevista desse juiz, na qual ele disse que apenas havia cumprido uma vontade de Deus. Podemos perceber que seu discurso, fundamentado na religião, externa preconceito. Penso, portanto, que se trata de uma posição minoritária; conquistas de direitos são sempre assim. Sempre há um backlash, uma onda de retrocesso contra o direito humano conquistado. Na quarta-feira, por exemplo, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro estava tentando votar o “dia do orgulho hétero”.

VOZ - Qual a sua opinião sobre o projeto de lei que prevê a criminalização da homofobia?

Érika - Eu sou favorável à criminalização da homofobia, tema de minha monografia final de curso. Eu acho que é extremamente fundamental para a nossa sociedade. É o Estado brasileiro dizendo que é contra a externalização da discriminação e do preconceito, assim como é com relação à xenofobia e ao racismo. No Brasil, a criminalização é fundamental para que o cidadão homossexual sinta-se representado. Apesar de a Constituição da República dizer que ninguém será discriminado, não é isso o que percebemos enquanto homossexuais. As pessoas fazem piadas e acham que não existe problema; chamam de “sapatão” na rua e jogam pedra no seu carro… É aceito que se discrimine homossexuais no Brasil. Então, penso que a criminalização é fundamental para tentarmos romper essa barreira e conquistar mais direitos.

VOZ - O que você sente diante das declarações homofóbicas de parlamentares como Jair Bolsonaro e da pressão realizada pela bancada evangélica contra a política anti-homofobia do governo federal?

Érika - Eu acho o Bolsonaro muito caricato. Creio que nem mesmo os conservadores o levam muito a sério. Mas vejo essa onda reacionária e conservadora, no Congresso, como um efeito dessas conquistas de direitos que os homossexuais vêm tendo ultimamente. A Argentina, por exemplo, legalizou recentemente o casamento entre homossexuais. Penso que, quanto mais direitos conquistamos, mais esses discursos tendem a aflorar.

VOZ - Hoje, durante a marcha evangélica, discursos homofóbicos foram efusivamente aplaudidos. Você vê o delineamento de uma cultura de ódio – e ódio recíproco – entre setores da sociedade?

Érika – Eu não enxergo a existência de um ódio recíproco. Vejo alguns setores evangélicos, e mesmo católicos – mais evangélicos do que católicos – tomando para si essa bandeira de defesa da sociedade, da moral e da família brasileira. Eu não vejo os homossexuais inseridos em uma cultura de ódio com relação às religiões. Mas é um pouco difícil se identificar com uma religião que está sempre pregando o homossexualismo como pecado. Conheço muitos gays evangélicos e muitos católicos. Recentemente, com essa postura do Malafaia, de encampar a bandeira de defesa da família, acho que se trata muito mais de um ódio deles em relação a nós. Eu não vejo muitos homossexuais pregando o ateísmo, por exemplo.

VOZ - Certamente, há muitos estudantes em nossa Faculdade que estão passando pelo drama de aceitação da própria sexualidade. Que mensagem você deixa para essas pessoas?

Érika - Para mim, ser lésbica é uma opção política. À parte da discussão se se trata de orientação ou de opção sexual, eu reitero que, para mim, ser lésbica é uma opção política. Eu quero ser vista como lésbica, como uma pesquisadora lésbica, porque a gente tem que “sair do armário”. Se queremos conquistar direitos, temos que “dar a cara a tapa”, mostrar que existimos e que não somos diferentes dos heterossexuais pela nossa opção sexual. Senão, permaneceremos legitimando esse discurso de ódio – a ideia de que somos inferiores e de que expressar nossa afetividade em público é algo que nos denigre e nos desabona. Temos que mostrar que possuímos as nossas qualidades, e elas independem de nossa sexualidade, a qual é só mais uma característica da nossa personalidade. Recentemente, um autor de novelas disse que atores gays não deveriam assumir sua sexualidade, porque eles não conseguiriam papéis no cinema e no teatro, o que é uma falácia, pois vemos heterossexuais interpretando homossexuais e isso não denigre nem desabona a sua imagem. Nós, enquanto homossexuais, temos o dever de mostrar que ser gay não é errado nem ruim.

3 Respostas para “VOZ ENTREVISTA: Érika Pretes

  1. Pingback: Pride. « 3 fingers Please!·

  2. Oi, Érika!

    Adorei a entrevista! Formei-me recentemente, no 1º semestre de 2011, na Faculdade de Direito da UFMG. Fico feliz que o Voz Acadêmica, a Faculdade e a Universidade de um modo geral estejam dando algum destaque a temas relativos à diversidade sexual, gênero, feminismo… Estamos caminhando… Minha monografia foi sobre discriminação da mulher nas relações de trabalho. :-)
    Muito sucesso pra vc! Continuarei acompanhando o blog.

    Abraço,

    Isabella.

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