Até quando você vai ficar sem fazer nada?

Acho que uma das cenas mais chocantes que já vi no cinema envolvendo travestis/transexuais foi no filme ‘Better Than Chocolate’. Após sua apresentação belíssima de “I’m not a fucking Drag Queen” a transgênero Judy Squire vai ao banheiro feminino retocar a maquiagem e na sequência uma lésbica entra no banheiro e começa a mexer com elA e a perguntar o que elE estava fazendo num banheiro feminino, que elE deveria estar enganadO e que deveria se retirar dali. Judy diz que não é um homem e que não vai se retirar e solta um ‘tire-me daqui’. A lésbica atira em Judy um copo com cerveja, Judy mantém a pose e pergunta se ela está satisfeita depois de ter feito isso. A cena é cortada pra outros personagens e quando voltamos ao banheiro Judy encontra-se encolhida embaixo de uma pia recebendo bolsadas na cabeça, ela não revida a agressão apenas se defende protegendo a cabeça. As amigas de Judy a socorrem e seguram a agressora, que grita várias vezes que Judy não é uma mulher e que ela deveria estar num banheiro masculino. As amigas de Judy retrucam dizendo que ela é sim uma mulher e que a agressora deveria pedir desculpas. Forçada por uma das amigas de Judy a agressora por fim se desculpa e a chama de senhora.

A cena é forte e me chocou bastante àquela época, pois além das agressões verbais e físicas me provocarem náuseas, me surpreendeu o fato das agressões terem sido perpetuadas por uma lésbica numa boate gay. Àquela época e até hoje tal fato me parecia surreal. Uma transgênero ser agredida por alguém que também era um alvo histórico/social/hipotético de preconceito, era para mim, fato  inconcebível na vida real.

Infelizmente, a vida muitas vezes é bem mais cruel que a arte.

Hoje pela manhã recebi um link para  uma notícia de que uma transsexual havia sido espancada por mulheres enquanto ia ao banheiro de uma franquia do McDonald’s de Baltimore nos Estados Unidos.

As imagens feitas por um empregado do McDonald’s são chocantes, nauseantes, e infelizmente reais:

As meninas que agrediram a transgênero no banheiro do Mc. Donalds de Baltimore são negras. MULHERES e NEGRAS. São pessoas que históricamente/socialmente são alvos potenciais de preconceito em sociedades como a nossa.

A matéria informa que o empregado do Mc Donald’s que fez o vídeo foi despedido. Creio que por ter dado visibilidade ao fato e não por ficar rindo e incentivando a violência enquanto fazia o vídeo, também não deve ter sido pelo fato de não ter ajudado a transgênero em questão.

O vídeo é nauseante não apenas pelas agressões físicas e verbais ou pelas risadas que se ouve ao fundo. É nauseante especialmente por mostrar a  incapacidade humana de se sensibilizar com o sofrimento alheio. Ninguém socorre a transexual nos primeiros momentos do vídeo, ninguém se coloca entre as agressoras e a vítima. NINGUÉM. Ninguém tenta parar as agressões.

Pela relato da vítima somos informados que o socorro prestado por empregados do Mc Donald’s só ocorre quando a transgênero começa a sangrar e agonizar no chão. Ouvimos no vídeo o próprio gerente da franquia dizendo pras meninas pararem de agredi-la antes que só reste um corpo no chão.

Até quando vai ficar sem fazer nada? As agressões só vão parar quando reste apenas um corpo no chão?

Infelizmente este caso acima relatado da transgênero agredida no Mc Donald’s de Baltimore não é um caso isolado.

Eu poderia relatar dezenas de casos de LGBTs brasileiros que foram agredidos e não receberam a ajuda de ninguém. Mesmo daqueles que os acompanhavam antes das agressões. Conheço casos de gays que foram agredidos e seus ‘amigos’ fugiram, conheço casos de ‘amigos’ que ficaram olhando e não fizeram nada. Conheço casos de amigos que buscaram socorro e ouviram um não da polícia e a desculpa cretina de que tal área não era sua jurisdição.

Creio que a máxima ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher’ deve ser superada também em relação a agressões contra LGBTs. Você pode não saber porque determinada pessoa está apanhando, mas você impedir que ela continue apanhando. Chame a polícia, arme um barraco pra que outras pessoas vejam acontecendo, para que o agressor se assuste, se meta no meio da briga. Dê um jeito de parar essa onda de violência. Você pode achar que isso não é um problema seu, mas é um problema seu sim!

Se você presenciar uma agressão, um crime de ódio, se proponha a ser testemunha da vítima, pergunte se ela está bem, se precisa de ajuda pra voltar pra casa. Estoure essa bolha de comodidade que você vive e não permita que alguém seja agredido na sua frente. Amanhã pode ser você, e talvez, alguém também ache que não é problema seu.

Você vai ficar sem fazer nada até quando? Até restar apenas um corpo jogado no chão?

O filme Better Than Chocolate termina melhor, Judy é socorrida pelas amigas que obrigam a agressora a dizer que elA é uma mulher e está no lugar certo. Judy é reconfortada por uma das amigas e se retira do recinto de cabeça erguida, machucada, mas erguida. Enquanto na vida real, a transgênero de Baltimore foi socorrida apenas por uma senhora de cabelos brancos que aparece no final do vídeo. Precisou sangrar, agonizar e quase morrer para que alguém a ajudasse. Precisou ser quase apenas um corpo jogado no chão para que alguém a notasse.

Post sem correções

13 Respostas para “Até quando você vai ficar sem fazer nada?

  1. Perfeito post! Eu tb me senti nauseada e fiquei pensando por que tanto ódio contra uma pessoa que está apenas sendo ela mesma? Por que isso ofende tanto? Muito triste…

    • O pior é que eu já vi uma militante negra lésbica e feminista referir-se pejorativamente a travestis, afirmando que a opinião delas não deveria ser levada a sério. Considero as agressões praticadas por pessoas historicamente oprimidas a igualmente oprimidos piores do que as praticadas por pessoas ignorantes.

      • Acho que o grande ponto de minorias discriminarem minorias, e no seu exemplo da militante lésbica e ‘feminista’, reside no fato que muitas pessoas ao se depararem com outras em uma situação de vulnerabilidade maior (no caso, @s travestis), sentem que podem se sentir melhor dentro de sua própria opressão, discriminando. É a lógica de “estou na merda, mas olha! tem gente pior que eu hahaha…”
        No mais, o caso todo é absurdo e chocante, mas não é novidade, infelizmente… =/

  2. Muito bom, Erika! O vídeo é muito revoltante, desde a agressão em si à omissão de praticamente todos os presentes. Fico com muito medo de, sem querer, esbarrar numa situação similar caso saia às ruas como mulher. Mas não podemos, ou devemos, parar.

    Sobre não fazer nada, é importante transmitir a mensagem de que se deve, sim, fazer algo. Eu sempre tive meus problemas com auto-confiança, e até verbalmente tenho dificuldades para defender minhas ideias; assim, em vários momentos ‘deixei passar’ situações em que deveria ter agido. Imagino que muitas pessoas sintam o mesmo, e é preciso encorajá-las a agir, sempre e das maneiras que forem possíveis. Obrigada!

  3. É impressionante que tenhamos chegado a este ponto! E no vídeo da agressão, mesmo em convulsão ninguém resolve ajudar a transexual, ninguém pede por socorro nem nada!
    O fato de serem mulheres negras me faz lembrar de casos frequentes por aqui, em escolas, nas ruas, algo que é relativamente comum e sempre me impediu de me livrar por completo dos meus preconceitos (pois é, eu, bissexual assumida, com modificações corporais visíveis, vivendo em uma cidade católica, também tenho preconceitos)… mas tem a ver com um tipo específico de mulheres – garotas, na verdade, mulheres maduras não fariam algo assim – negras da periferia. Tenho amigas que já foram agredidas simplesmente por terem o cabelo liso e estarem com fone nos ouvidos (justificativa de quem atacou); levaram tamancada, tapas, tiveram a bolsa puxada (mas não levada, ou seja, não havia intenção de roubo)… logo, continuo nutrindo minha visão de que mulheres da periferia são violentas e agressivas e preferem lidar com as diferenças de forma violenta. Acho feio pensar assim, mas ao mesmo tempo não me surpreendo tanto ao ver as protagonistas da cena acima… nós falamos em grupos de ódio e em homens violentos, mas nos esquecemos de um comportamento que, pelo menos a partir da minha experiência, é comum entre estas garotas mais pobres, seja pelo tipo de criação, pelo ambiente em que vivem…

    E parabéns para a senhora que foi a única que teve colhões o suficiente para intervir, né?!

  4. Isto sem contar que no universo LGBT há um imenso preconceito, muitas vezes aberto, contra travestis e transexuais! Conheço muita gente que os repudia num meio em que não deveria haver esse tipo de separação. Só que o pensamento que se passa é o seguinte: não é porque alguém faz parte de uma minoria que tem de aceitar a outra… entender uma orientação sexual diferente é uma coisa, mas aceitar o que vai além disto (mudanças de gênero e sexualidades adversas) é muito mais complicado, afinal, se pensarmos bem, mesmo no meio LGBT há o lado conservador, que luta simplesmente pelo direito de se atrair pelo mesmo gênero e não estão interessados em esclarecimentos que vão além do próprio caso. Por isso também que acho que a mudança da sigla de GLS para LGBT, em vez de incluir, evidenciou a exclusão… porque só mudou a sigla, mas os “Ts” (e às vezes os “Bs” também) continuam como uma classe a parte.

    • @Fran
      Exatamente, penso que a mudança da sigla nada mudou em quesito de visibilidade trans, bissexual, ou mesmo lésbica. Estou cansada de ouvir ‘casamento gay’ blablablá gay, mimimi gay, sempre gay, usando o termo gay para se referir as outras letras da sigla. Existe bastante discriminação bissexual de fato, para muitos homossexuais, por exemplo, o bissexual é indeciso, ou enrustido/a.

  5. Eu não entendo essa posição que as pessoas têm de “ficar só olhando e não fazer nada”. É nauseante ver pessoas fazendo esse tipo de coisa, e é mais nauseante ainda ver que há pessoas que falam que “travesti tem que apanhar mesmo”, ou que “gay tem que apanhar, pra ver se leva jeito e para com a veadagem”. Não entendo as pessoas que vêem esse tipo de coisa e não fazem nada. Isso me lembra também um comentário que já ouvi várias vezes: “Não sou homofóbico, não tenho nada contra gays, mas quero que fiquem longe de mim.” Ou seja: se eles estão apanhando, eles que se virem.
    É muito fácil encarar tudo isso quando se está na zona de conforto. Uma vez, num blog, li um post cuja autora falava algo como “opção sexual é uma opção como qualquer outra, ninguém tem nada a ver com o que você faz entre quatro paredes” (no post ela criticava o movimento do orgulho gay). Então quer dizer que héteros fazem sexo entre quatro paredes e, em todas as outras situações, não andam de mãos dadas, não trocam afeto? Claro que não é assim que as coisas acontecem. Então, por que os gays não podem demonstrar afeto? E, quando demonstram, correm o risco de serem espancados na rua? E aí eles decidem se unir para mudar a situação, e as pessoas começam a falar que os gays estão querendo impor um jeito de pensar e de agir que discrimina os heterossexuais (?) e condena quem “pensa diferente” – ou seja, quem acha que o certo é homem e mulher está começando a se sentir discriminado. Ficam falando que “agora, além de respeitar, tem que gostar de veado.” E com isso voltam a disseminar todo o preconceito e ódio que têm contra quem é diferente…

  6. amei o post e amei o comentário da luana em especial.
    Concordo com o que todas disseram a respeito da minoria oprimida que, espantosamente, encontra outra minoria para oprimir.
    Li um texto da grande Lúcia Facco, autora lésbica, falando justamente dos dois assuntos abordados aqui: o preconceito de gente que sofre preconceito e a falta de solidariedade nas pessoas.
    Incrível como o mundo vive uma cegueira social. Todos fecham os olhos ou, pior, riem de cenas de barbárie como esta.
    Parabéns pelo post, parabéns pelos comentários maravilhosos que se seguiram.

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  8. Conheci seu blog por este post e gostei do jeito como você escreve. Esse vídeo realmente é nauseante, ainda mais quando pensamos que as agressoras também são uma minoria étnica, que sabem como é sofrer para superar o preconceito.:/
    E um grupo de umas 15 garotas negras (e provavelmente pobres, estavam com uniforme de escola estadual e aquele vocabulário de vileiros) já mexeu comigo num banheiro de shopping, me xingando de sapata e etc., por ter cabelo curto e de cor fantasia.
    Assim como a colega de alguns comentários acima, esse tipo de situação me impede de ficar livre de alguns preconceitos… uns 95% das vezes em que me perseguem na rua, xingando, são os típicos vileiros de periferia. Não acho que todo morador de periferia seja assim (eu mesma sou uma), mas confesso que evito contato a fim de evitar o estresse.

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