inquietude

 

“Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago…” – foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.
Grande Sertão:Veredas

Acho que é uma das cenas mais fortes que já  num seriado. Six Feet Under é denso, e eu adoro. Mas essa cena foi a mais densa. A Lisa havia desaparecido durante boa parte da 3 temporada, e no final descobrem que ela tinha se afogado numa praia, o que é estranho por que ela sabia nadar e tal, adorava o mar. Nos devaneios do Nate sempre aparece a Lisa se despindo e entrando no mar de maneira calma, ela caminhava em direção a morte de maneira abnegada. O Nate acha que ela cometeu suicídio por causa dele. Ela o amava modo intenso. Eles tiveram uma filha, o Nate se casou por que ela tava grávida e ele estava decepcionado com a Brenda, que ele ama. O casamento não era perfeito, mas ele levava. E ela o amava. Um dia ela deixou a filha em casa, pegou o carro e sumiu, encontraram o carro e uns dias depois uns garotos encontraram o corpo dela.

Lisa era natureba, vegan e tal. Uma vez falou com Nate que quando morresse queria ser enterrada numa floresta, sem caixão, sem embalsamento, queria voltar a natureza. Legal isso. Acho. A família dela que sempre fora afastada, a mãe principalmente, nao gostaram nada disso, e queriam cremar o corpo e levar pro Canadá e colocá-la no mausoléu da família, numa gaveta. Nada a ver com a vida da Lisa, nem com seu último pedido. Nate sofreu e brigou muito. Concordou com aquela idiotice. E levou o corpo pra ser cremado. A família do Nate, os Fisher, são donos de uma funerária, e ele deu um jeito de colocar as cinzas de um daqueles ‘clientes’ que a família esquece, colocou as cinzas de um cara que foi cremado em 1972 na urna que a família comprou pra Lisa.

Nate dirigiu até um lugar em que eles costumavam acampar, estava escuro mas os faróis do furgão da funerária iluminaram o local em que lisa seria enterrada, tinha uma árvore, ele começou a cavar e o chão era bem duro, parecia pedra, era duro cavar ali, duro por que ele cavava um túmulo pra Lisa.

Lisa foi encontrada muitos dias depois que desaparecera, o corpo já estava em decomposição, os órgãos estouraram o que dava ao corpo um terrível odor. Ela não foi embalsamada, o corpo estava em pedaços dentro do saco do necrotério. Nate entrou no furgão pegou o saco e entrou dentro do buraco que acabara de cavar, se ajoelhou e começou a abrir o saco e os pedaços de Lisa eram colocados no chão, não mostram a cena, mas a expressão de dor, angustia no rosto do Nate, o desespero dele, e o nojo pelo odor do corpo, a mulher que o amava, morta ali, por causa dele? Assim que a Lisa foi colocada dentro do buraco ele pulou, chorando, desesperado. Tapou o buraco, e começou a ajeitar a terra, a pular, a gritar, a chorar. Desespero. Nunca vi uma cena tão forte.

Tenho tido muitos pesadelos esses dias, sonho com morte e suicídio. Não consigo dormir, sempre que fecho os olhos me imagino morrendo, em acidente de carro, caindo de um precipício. Mas a imagem mais recorrente é de cair de costas numa daquelas estruturas de obras, sabe? Morrendo com um ferro cravado no coração. O pior é que eu demoro pra morrer nesses sonhos. Pesadelos. Fico ali agonizando. Odeio esses sonhos. Não são de agora, sempre os tive. Mas não com tanta freqüência. Ando com dificuldades pra dormir. Sinto um vazio enorme. Fico deitada na cama me sentindo só. Não me sinto triste. Ou muito triste. Tenho aquela sensação horrível de ter sido abandonada. Sensação cotidiana de alguém que foi desterrado. Não gosto de conversar sobre isso, das ultimas vezes que tentei tentaram me dissuadir desses pensamentos, pra parar com essa bobeira e tal. É chato se sentir assim e ter que ouvir esse tipo de coisa.

Mas acho que procuro fugir do vazio em lugares errados, com pessoas erradas. Sei lá. Buscar abrigo em lugares errados é pior que se sentir só.

Eu não sou uma pessoa triste, ou que vive o tempo todo desanimada com a vida. Eu adoro estar viva, adoro meus amigos, minha namorada, minha família. Mas mesmo assim me sinto só e triste, às vezes. Eu sou humana, porra. E isso é inevitável. Não estou anestesiada como parece que a maioria das pessoas está. Tem dias que não consigo dormir. E tem dias que não quero acordar. Acho natural. Acho normal falar disso. Mas tem gente que se incomoda comigo por falar disso.

Estou postando hoje só pra dizer em dias como hoje eu gostaria de poder gritar e chorar como o Nate  sofreu a morte da Lisa.

 

 

Que há de se fazer com a verdade de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só? Clarice Lispector

 

“Evoca-se na sombra uma inquietude
Uma alteridade disfarçada” Fernando Anitelli

 

4 Respostas para “inquietude

  1. Esse foi um dos posts mais lindos que li nos últimos tempos… verdadeiro e doce.
    Todo mundo é um pouco triste e um pouco só… quando não é muito triste e muito só.
    Brenda e Nate eram os meus favoritos nesse seriado…

  2. Gostei muito do Post.
    Não constumo sonhar muito com a morte mas sei como a vida pode ser angustiante. Se morar em SP e quiser me encontrar para batermos um papo, quem sabe ajude?

  3. Você vem pro Rio, mesmo? Quando chega? Bora tomar um chope, falar de dor, de morte, de medo, dessas coisas difíceis que as pessoas mandam a gente calar a boca quando começa a falar delas.

    E posso te dar uma sugestão? Vai pro divã. No analista você pode falar dessas angústias em paz, para alguém que vai te ouvir sem te mandar parar, e vai te ajudar a entender esses sentimentos, e aceitá-los como parte da vida.

    Muito se ilude quem acha que viver bem é viver sem angústia, sempre feliz e contente. Os pesadelos são tão parte de nós quanto os sonhos mais bonitos, e o fato de serem incômodos não significa que devamos nos livrar deles. A beleza da experiência humana também está na dor, inclusive na dor de aceitar que a solidão é inevitável e irremediável, por mais que a gente se cerque de pessoas e ilusões.

    Lindo post, moça, até pra quem não é fã de tv.

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