Ir a padaria é um ato político

Um dos meus filmes preferidos, atualmente, é o título israelense ‘The bubble’, uma alusão a sociedade que vive em apartamentos, onde toda uma vida se passa dentro de bolhas. Por incrível que possa parecer esse post não é sobre o filme em questão. Só queria me valer da alusão a bolha.😉

Penso que vivemos em bolhas, mas não em apartamentos que se transformam em bolhas como no filme citado acima. Vivemos em micro-bolhas.  Onde cada um se importa só com o que acontece, ou não, consigo mesmo. Em que nos preocupamos só com o que somos e temos, ‘futura advogada, classe média, míope’ (todos somos míopes em algum sentido).‘Tenho ‘n’ coisas para me preocupar, porque me preocuparia com política? Com a ‘causa’ gay? Faço parte de inúmeras ‘minorias’, porque levantar a bandeira do movimento gay?’

Vivemos em bolhas. BOLHAS!

E por vivermos em bolhas, talvez não percebamos que para algumas pessoas o simples gesto de sair de casa e ir a padaria é um ato político. Um ato heróico muitas vezes, ou na maioria delas.

Mas talvez por vivermos em bolhas não percebamos isso.

Hoje, 19 de julho de 2010, ocorreu o lançamento do documentário sobre transexualidade e travestinidade que retrata as muitas histórias de vida de travestis e transexuais de BH.

Meu querido amigo Daniel bem ressaltou em sua fala que o lançamento deste documentário representa um marco para a história das travestis e transexuais em BH, vou além, acho que é um marco para as travestis e transexuais do Brasil, não tenho notícias de um documentário dessa magnitude sobre tal tema.

Assim que possível disponibilizarei no blog o documentário. Quero escrever também sobre o documentário, mas agora farei a transcrição de uma fala de hoje que muito me marcou e gostaria de compartilhar com vocês.

Por questões técnicas a exibição do documentário atrasou um pouco e para suprir uma lacuna, depois que todas as transexuais e travestis convidadas haviam falado, um Frei foi chamado para comentar sua participação no projeto. Eu como boa mineira que sou e quase atéia fiquei um bocado desconfiada de tal fala. Oras, o que um Frei poderia falar de transfobia?

De cara o Frei criticou a postura dos representantes das religiões e do trato que elas dão a sexualidade. O modo como ignoram o preceito fundamental das religiões, o amor (e o respeito). Achei bacana. Mas não foi isso que me chamou a atenção e que me fez correr pra escrever isso antes que desapareça da minha memória… Não ia desaparecer, por óbvio, era empolgação em compartilhar isso com o mundo. Ou com parte dele.

O Frei é um pesquisador de educação e integra o Educação Sem Homofobia, um programa do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG (NUH).

Por ser um pesquisador do NUH o Frei estava habituado a conviver com transexuais e travestis, sempre participava de algum evento, alguma mesa de debate, encontrava as transexuais e travestis no corredor da faculdade, mas nunca, nunca havia caminhado com travestis e transexuais.

Eu também não, infelizmente. E creio que você que está lendo este texto também não, como já disse no início do post, vivemos em bolhas, eu, o Frei, você e o resto.

Um dia o Frei encontrou a Lili Anderson* e a Sarug** no corredor da Fafich e resolveram almoçar, fizeram um trajeto de cerca de 1km até o bandeijão da UFMG.

Nesse dia em que resolveu caminhar até o bandeijão com Lili e Sarug, a fina película da bolha do Frei foi estourada. Ou melhor, foi estilhaçada pelo olhar de centenas de estudantes, de centenas de ilustríssimos alunos da UFMG.

Certamente os olhares não eram para o Frei, não tinham como alvo o seu corpo masculino, aqueles olhares de reprovação, que cortavam feito navalha, não se dirigiam ao Frei. Não. Aqueles olhares, olhares de ódio e de escárnio, aquelas laminas muito bem afiadas se dirigiam a Lili e a Sarug.

Durante toda a caminhada de cerca de 1km, que mais parecia uma centena de quilômetros, os três foram apontados como seres anormais e fuzilados por olhares, por risadinhas ensurdecedoras.

Sim, ensurdecedoras, mas só para quem não vive em bolhas.

Após essa longuíssima jornada eles chegaram finalmente ao restaurante, onde poderiam desfrutar em paz de um belo almoço e uma aprazível conversa entre amigos. Poderiam?

Creio que não.

O nobre corpo fétido, digo discente da UFMG, que estava presente no refeitório não poderia deixar que aqueles seres ‘anormais’, extraterrestres almoçassem em paz.

E a turba, digo, os civilizados estudantes começaram a apontar para Lili e Sarug e a gritar palavras de ordem e bater talheres na mesa. Toda a atenção se voltou para Lili e Sarug.

O Frei relata que de tanto ódio e vergonha que sentiu teve vontade de apedrejar aqueles alunos e que se tivesse uma navalha teria feito um estrago ali.

Lili e Sarug acalmaram o Frei e sentenciaram:

–       Calma Frei, estamos em um ambiente civilizado. Ainda não caminhou conosco pela Praça 7.

———————————–

Vivemos em bolhas. Em micro-bolhas de advogados, estudantes, graduandos, mestrandos, doutorandos, designers, funcionários públicos, jornalistas, DJs… VIVEMOS EM BOLHAS. Achamos que gays, lésbicas, transexuais, travestis, mulheres, negros, índios, estrangeiros, whatever, são minorias. Que estas ‘minorias’ tem ‘causas’, ‘bandeiras’ distintas. Que a luta é ‘deles’. E mesmo que você não esteja dentro do modelo (bolha) homem-branco -heterossexual-classe média – cristão, você acha que tem ‘mais o que fazer’ do que empunhar qualquer bandeira de qualquer dessas causas de qualquer uma dessas minorias.

Quero te informar uma coisa meu querido leitor-bolha, não existem várias lutas, bandeiras ou minorias. A luta é uma só e é cotidiana. Lutamos (e você deveria lutar também, e levantar essa sua bunda gorda, ou magra, dessa cadeira) pela redemocratização do Brasil, COTIDIANAMENTE.

Direitos humanos são construídos historicamente e reafirmados cotidianamente. Não existiram desde sempre e podem não durar para sempre. O seu direito de ir e vir, pode ser limitado um dia. Como o meu ainda é. Sou lésbica e preciso de uma lei que me permita a manifestação de afeto em público sob pena de multa para quem me impedir. Mas você vive numa bolha e não percebe isso. Mesmo você leitor-bolha-LGBT não percebe o quão isso é estranho.

Não percebe que não existem travestis e transexuais na sua sala de aula.

Não percebe o número diminuto de negros nas universidades.

Não percebe a número ínfimo de mulheres na política.

Não deve saber também que o indígena é considerado um incapaz pelo Estado e do que isso significa.

Você não percebe que ir a padaria é um ato político para uma transexual ou travesti, por que a sua bolha só permite que você a perceba como uma anormal. E quando ela passa você pensa como é que ela teve coragem de sair de casa.

E eu me pergunto leitor-bolha, como é que você tem coragem de viver numa bolha, de se permitir viver numa bolha, de estar se lixando para o que acontece no mundo, com seus iguais?

————–

Update: 22 de julho

Primeira Parte

Segunda parte

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*Lili Anderson, é uma transexual feminina e Educadora social, militante ativista dos direitos da pluricidade, integra o NUH/UFMG.

** Sarug Dagir Ribeiro, é uma transexual feminina e possui Graduação em Psicologia (2002) e Mestrado em Letras (2006) pela Universidade Federal de Minas Gerais, atuando principalmente nos seguintes temas: hermafrodita, Herculine Barbin, gênero e sexualidade.

——————————

Érika Pretes, vulgo @inquietudine, uma estudante de Direito, aspirante a militante/ativista dos Direitos Humanos e que vive estourando suas próprias bolhas (e as alheias).

31 Respostas para “Ir a padaria é um ato político

  1. Calma Frei, estamos em um ambiente CIVILIZADO. Ainda não caminhou conosco pela Praça 7.
    Isso me deixou horrorizado.
    Aliás, é para deixar qualquer leitor-bolha-neste caso LGBT horrorizado.
    Ótimo post!

  2. Tragicamente verídico.
    Ir à padaria como um ato político é trágico.
    Não tenho a sua eloquência para tratar desse tema mas posso dizer que assino em baixo.
    Claro que eu mesmo continuo confortável dentro de minhas bolhas e pouco faço para sair mas o comodismo é também uma autodefesa.
    Afinal, o que espera por nós fora dessa segurança?

  3. Tenho uma amiga trans, felizmente nunca vi acontecer qualquer coisa dessas andando com ela.
    Mas ela sofre outros tipos de agressão como pessoas no trabalho que insistem em chamá-la pelo nome de registro ao invés do nome social como se quisessem dizer “Ei você nunca vai ser uma mulher tá.”

  4. Erika, ótimo post. parabéns
    Em relação ao filme citado, bubble é como é conhecida a cidade de Telaviv. Quando foi construída por judeus no final do século XIX, principalmente após a imigração judaica pós guerra, foram construídos prédios mais altos próximo a orla e assim o ar não circula direito pela parte central da cidade, daí o nome.

  5. Arrasou no post, Érika!!! Adorei te conhecer por aqui também. É bem menos micro- do que o twitter. Vou disparar em viral. Bjs, J

  6. Parabéns pelo excelente comentário.
    Ainda estamos engatinhado nessas questões sexuais, há muito preconceito disseminado, principalmente por causa da Igreja Católica, mas Frei como esse que você relatou, fazem voltar a ter esperança.
    Obrigado por dividir isso conosco.
    Abraços

  7. #geisearrudafeelings…😦

    com subtitulo “eu tenho medo da horda universitária”. como o universo da população em curso superior é resumidíssimo, as minorias nesse resumo acabam enfrentando mais perrengue, o que dá mais medo, o que engrossa o caldo da não-visibilidade.

  8. Olá Erika,

    muito legal seu artigo.
    Acompanho (é sigo, né) você (inquietudine) pelo twitter (marprocopio). Já te convidei para publicar algo seu no jornal O Cometa, de cultura, ideias e humor – e política. Tentei enviar uma edição em pdf e não achei seu endereço.
    Agora queria publicar esse Ir a padaria é um ato político no blog e compartilhar no FB. O portal está em reconstrução.
    Posso?
    Marcelo

  9. Oi, Erika. Ai, finalmente consegui ler seu post. Vi quando você tuitou ontem, mas não pude vir aqui antes e estou muito feliz de ter vindo agora. Infelizmente conheço centenas de pessoas a quem adoraria mostrar esse texto – e é tão triste saber que a imensa maioria delas nem se daria ao trabalho de ler até o final. É mais do que triste, é deprimente. Vergonha, muita vergonha.

    Parabéns pela voz, pela postura.

    Beijos,
    Rita

  10. Olá Erika.

    Belíssimo texto. Ao ler experiencias como essa, fico me perguntando até quando ainda viveremos em uma sociedade tão atrasada?

    Gostaria de saber se há algum problema em publicar seu post (com os devidos créditos, claro) em um blog que edito. Acredito que a disseminação desse tipo de texto ajuda a explodir cada vez mais bolhas por aí.😉

    Edito todo terça no bulevoador.haaan.com, e gostaria de publicar seu texto lá esta semana, se não tiver problema.

  11. Pingback: Bule Voador » Blog Archive » Ir à padaria é um ato político·

  12. Com relação ao texto, a cultura do “diferente” está arraizada na maioria das pessoas.

    Aquilo que lhes é “estranho” é tratado com o instinto de defesa.

    Aceitar o outro, sem ver no outro o reflexo de si, é um exercício complicado e que requer muita autoformação.

    Exemplo disso são as crianças e adolescentes, os quais são os maiores “praticantes” de bullying que existem. Muitos as classificam como perversas (talvez sejam), porém, a estranheza, a necessidade de auto-afirmação e o aceitamento no grupo são alguns fatores que as motivam em suas “maldades”.

    Porém, levar esse tipo de comportamento ao nível de uma Universidade é viver uma infância/adolescência tardia, é continuar vivendo aquele mundinho provinciano das idades pueris. Total falta de maturidade e autocrítica. Sou professor universitário e repreendo sem temor qualquer atitude dos alunos do Campus nesse sentido.

    Mas, há uma coisa de criança que devemos reproduzir na idade adulta, que é justamente isso: estourar bolhas!

  13. Olá Érika.

    Achei seu blog por acaso, se é que ele existe. Mas grata surpresa do acaso que me trouxe aqui.

    Tenho um blog voltado para homens transexuais (fem p/ masc). Mas não, não gosto de rótulos, só tem esse nome para que eles identifiquem como um local seguro, onde acharão informações, acolhimento e respeito.

    Na verdade muitas pessoas que visitam o blog imagino não se identificarem como transexuais. Alguns assuntos são universais e tem a capacidade de falar ao ser humano, ou tentar ao menos.

    Para além das bolhas cotidianas.

    Para além da identificação de homem, mulher, negro, etc e tal.

    Que o dia chegue, e creio nele, onde a identidade será humana, e o que ferir a meu semelhante, seja ele da éspecie que for, ferirá a todos, e que toda benece feita a ele seja de todos nós também.

    Parabéns.

  14. Amei seu comentário.Sou cristã (leio a Bíblia) ,respeito católica,respeito protestante e outras , porém não considero-me fechada pro mundo, mas por não defender nenhuma em favor dos gays e outros vico em uma bolha. Ótimo texto, vc é Dez! Vivemos em bolhas preocupados apenas com nossos umbigos. São tantos os discriminados,temos que nos unir, a discriminação deveria ser considerada um crime contra o outro. Bjus

  15. seu texto só tem coisas veridicas o que realmente aconte perante nossa sociedade, adorei o texto realista e insentrico, realmente real, parabéns abraço!!!

  16. Oi, Érika.
    Queria parabenizá-la pelo ótimo post.
    Eu, sendo um homem trangênero, ainda assim percebo às vezes que vivo também em uma bolha.
    Nunca passei pelo que essas mulheres trans passaram, mas conheço o preconceito por pessoas como nós.
    Preconceitos sempre hão de existir, infelizmente.
    Mas temos que continuar com nossos pequenos atos políticos.
    Nem que seja ir até a padaria.
    Abraço.

  17. Pingback: E o polêmico apoio dos cristãos à Dilma | InQuIeTuDiNe·

  18. Oi Érika.

    Achei teu blog num link no twitter ou no facebook e não consigo sair daqui. Seus textos são especiais. Sua paixão é contagiante.

    Fiquei muito emocionada com este post. Não sei se é coincidência, mas essa eleição me aflorou uma vontade de participar mais da vida do País. Acho que foi a Marina e sua esperança de desenvolvimento sustentável. Aí cheguei aqui e percebi o quanto isso é importante: participar.

    Parabéns por já dar sua participação, estourando bolhas. Vc não faz idéia do bem que vc está causando.

    Bjo.

  19. Olá Erika!
    Puxa vida, que texto lindo! E, claro, que triste é viver em um mundo de tantas bolhas… mas devemos seguir a boa luta né. Este seu texto é um tapa na cara positivo, usando-se de uma das comunidades mais marginalizadas, a transgênera — especialmente travestis e transexuais.
    Só pra falar rapidinho de mim — uma história que não é incomum, levando-se em conta aspectos gerais –, sou uma garota transgênera (ainda crossdresser) que está aprendendo a encarar a identidade de gênero de frente (mas sou medrosa ainda, rs). E isso só pôde acontecer depois que eu saí do país, pra que houvesse alguma liberdade. Agora, que penso em voltar ao Brasil, estou com bastante medo de como será (re)negociar minha imagem (!) com as gentes — família, parentes, amig@s.
    Some-se a isso a marginalização social (com muito desprezo, nojo, desdém embutidos), muito menos oportunidades acesso aos direitos (educação, saúde, etc.), a possibilidade constante de violência — opressões que eu tive o privilégio e a sorte de não ter sentido –, e temos um pouco da realidade das travestis e muit@s outr@s. Essa bolha já foi estourada em mim faz tempo, já.
    Pra não me alongar muito, queria agradecer de coração pelo post. Sendo transgênera, meu agradecimento só ganha em emoção, pois ter nosso direito à expressão e identidade de gênero defendido assim, na lata e com tanta propriedade, é um acalanto imenso. Fala-se muito das propensões suicidas mais altas entre transgêner@s; eu, tendo muito a agradecer até o momento, não penso nisso nem um pouco a sério, porém tenho uma compreensão assustadora dos tipos de situação que podem levar uma menina trans, ou um menino trans, a acabarem com a própria vida. De maneira mais ampla, o mesmo para @s LGBTs tod@s.
    Ah, adorei esse trecho aqui, ó:
    “Direitos humanos são construídos historicamente e reafirmados cotidianamente. Não existiram desde sempre e podem não durar para sempre. O seu direito de ir e vir, pode ser limitado um dia. Como o meu ainda é. Sou lésbica e preciso de uma lei que me permita a manifestação de afeto em público sob pena de multa para quem me impedir. Mas você vive numa bolha e não percebe isso.”
    Dá até pra fazer um quadro com essa frase.

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