A cada linha de um texto de Caio Fernando Abreu eu tenho essa sensação de que é pra mim que ele escreve, adoro esse trecho da carta ao Zézim, estou nessa fase também, e parece uma carta à Érika.

“Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.”

3 Respostas para “

  1. Curioso como alguns textos parecem a expressão de uma geração.
    Me identifico muito com essa carta, com esse trecho, e acho que a sua Érica é como a minha Fernanda, que é o Zézim do Caio.
    Acho até que a primeira vez que a li foi por indicação tua no twitter.

    Sei que ela bate e encaixa direitinho, como se fosse minha pra ela, ou dela pra mim, porque revezamos os papéis.

    E essa força visceral da arte dele, de vomitar, tirar sangue, ou a morte, é que leva à genialidade os seus escritos.

  2. É incrivel como as coisas que o Caio escreveu nos anos 80/90 refletem tudo o que sentimos hoje. Talvez as inquietações humanas sejam mesmo atemporais.

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