No caminho com Maiakóvski

0909263

“Ao custo de R$ 40 milhões, o governo do Rio vai construir muros no entorno de 11 favelas. O objetivo, segundo o Estado, é conter a expansão das moradias irregulares em áreas de vegetação. Todas as áreas escolhidas, no entanto, cresceram abaixo da média em comparação às demais comunidades. O projeto, inicialmente, será implantado apenas na zona sul, área nobre da cidade.” Fonte: Folha

A Aline do até aqui tudo bem escreveu um ótimo post sobre esse muro… E este post do poema do Eduardo da Costa é justamente em razão do post da aline. 

 

NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI

 

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

 

EDUARDO ALVES DA COSTA
Niterói, RJ, 1936

Nota: Poema publicado no livro ‘Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século’, organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.

6 Respostas para “No caminho com Maiakóvski

  1. É impressionante a forma como os governos e políticos tentam resolver os problemas, que não são de hoje, referente a classe menos abastada da população brasileira e que tem no Brasil maior representação popular e menos apelo econômico. enquanto eles não se derem conta que a solução para os problemas sociais só se dá através de incentivo a cultura, o esporte e a educação haverá sempre demagogos e hipócritas encarnando o perfil de salvador com propostas fantasiadas de solução mas que no fundo só apresentam a pior face da podridão ao qual este país está infectado.

  2. Érika, eu noa sabia q o cara que escreveu o poema era de niteroi, minha mais recente cidade do coração.🙂
    Super conhecido aquele trecho q vc deixou na caixa de comments, mas eu nunca tinha lido inteiro.

    obrigada. :**

  3. cara, é muita cara de pau. eles pensam o quê, que o povo não vai perceber qual é a real intenção do muro? ou que vai achar OK isso? putz. é muita cara de pau, muito atrevimento resolver pôr isso em prática. eu não acredito que vão deixar. ô mundo idiota esse nosso.

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