um transexual incomoda muita gente

Aqueles que fazem de sua orientação sexual e identidade de gênero também uma opção política tem a minha admiração eterna. E uma pessoa que eu adoro e admiro muito é a Maitê Schneider. A linda da Maitê é uma mulher, mas a norma gosta de chamá-la de mulher transexual, e colocá-la na caixinha das anormalidades. Assim  como nós os outros LGBT. As falas da Maitê são sempre inquietantes, ela nos traz um olhar que só ela enquanto mulher transexual numa sociedade extremamente heternormativa pode nos fazer vislumbrar. Como já dito aqui, pra elas mais que pra nós, até o simples gesto de ir a padaria é um ato político, e que pode ser bem doloroso. Pois carregam no corpo aquilo que mais incomoda nossa sociedade, a vontade de transgredir aquilo que é dito como normal, natural. A vontade de ser aquilo que se é, para assim tentar de algum modo buscar a felicidade. Felicidade essa que é negada a alguns setores em função do pertencimento a determinada raça, gênero, orientação sexual e identidade de gênero.

Fica aqui um trecho do debate Projeto Expressões de gênero que muito me inquietou e emocionou:

Maitê:

- E se vocês quiserem que eu cale a boca, e  acho que é isso que mais incomoda na nossa militância. É a possibilidade. Porque eles olham pra gente e falam assim: “Puta que o pariu, a gente falou que elas não podiam ser, que elas não podiam mudar o corpo, elas foram lá e mudaram. A gente falou que elas não podiam mudar o nome, elas foram lá e mudaram. A gente falou que elas não podiam mudar os documentos, elas mudaram. Que elas não podiam mudar o sexo que elas nasceram, elas mudaram. A gente falou que elas não podiam ser felizes, elas foram. Que elas não podiam remar contra a maré e elas remaram. Essas porras podem fazer o que quiserem na vida!”

Maitê: É isso que assusta eles, é isso que assusta essa sociedade. E é pra essa sociedade que a gente tem que continuar respirando. É pra essa sociedade que a gente tem que continuar sendo forte e dizer “eu vou continuar existindo!”

E como diria a nossa querida Simone de Beauvoir: ”Que nada nos limite. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” 

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Perseguição aos gays

Tentei selecionar uns trechos pra postar no face, mas o texto está tão foda que resolvi reblogar integralmente.

Perseguição aos gays

TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

MARIO VARGAS LLOSA É ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,perseguicao-aos-gays-,861225,0.htm

Na noite de 3 de março, quatro neonazistas chilenos, liderados por um valentão chamado Pato Core, encontraram caído nas cercanias do Parque Borja, em Santiago, o jovem Daniel Zamudio, ativista homossexual de 24 anos que trabalhava como vendedor numa loja de roupas. Durante seis horas, enquanto bebiam e pilheriavam, os quatro se dedicaram a dar pontapés e socos no jovem homossexual, golpeá-lo com pedras e marcar suásticas no seu peito e costas com o gargalo de uma garrafa. Ao amanhecer, ele foi levado a um hospital, onde agonizou por 25 dias antes de morrer em decorrência dos traumatismos.

O crime causou uma vivo impacto na opinião pública chilena e sul-americana. Multiplicaram-se as condenações à discriminação e ao ódio contra as minorias sexuais, profundamente enraizados em toda América Latina. O presidente do Chile, Sebastián Piñera, exigiu pena exemplar e pediu que se acelere a aprovação de um projeto de lei contra a discriminação, que vegeta no Parlamento chileno há sete anos, parado nas comissões por temor dos parlamentares conservadores de que a lei, se aprovada, abra caminho para o casamento entre gays.

Esperemos que a imolação de Daniel Zamudio sirva para trazer à luz a trágica condição dos homossexuais, lésbicas e transexuais nos países latino-americanos onde, sem uma única exceção, são objeto de escárnio, repressão, marginalizados, perseguidos e alvo de campanhas de descrédito que, no geral, contam com o apoio declarado e entusiasmado da maioria da opinião pública.

Nesse caso, o mais fácil e mais hipócrita é atribuir a morte do jovem apenas a quatro canalhas pobres diabos que se denominam neonazistas e, provavelmente, nem sabem o que é isso. Eles não são mais do que a guarda avançada mais crua de uma cultura antiga que apresenta o gay ou a lésbica como pessoas doentes ou depravadas que devem ser mantidas à distância dos seres normais, pois corrompem o corpo social saudável, induzindo-o a pecar e a se desintegrar moral e fisicamente em práticas perversas e nefandas.

Esta noção do homossexualismo é ensinada nas escolas, difundida no seio das famílias, pregada nos púlpitos, divulgada pelos meios de comunicação, aparece nos discursos de políticos, nos programas de rádio e televisão e nas comédias teatrais onde os homossexuais são sempre personagens grotescos, anômalos, ridículos e perigosos, merecedores do desprezo e da rejeição dos seres decentes, normais e comuns. O gay é sempre “o outro”, o que nos constrange, assusta e fascina ao mesmo tempo, como o olhar da cobra assassina para o passarinho inocente.

Num tal contexto, o surpreendente não é que se cometam atos abomináveis como o sacrifício de Zamudio, mas o fato de que sejam tão pouco frequentes, ou talvez seja mais correto dizer tão pouco conhecidos, pois os crimes provocados pela homofobia que vêm a público são só uma pequena parte dos que realmente são praticados. Em muitos casos, as próprias famílias das vítimas preferem colocar um véu de silêncio sobre eles para evitar a desonra e a vergonha.

Tenho comigo, por exemplo, um relatório preparado pelo Movimento Homossexual de Lima, que me foi enviado pelo seu presidente, Giovanny Romero Infante. De acordo com uma pesquisa realizada entre 2006 e 2010, foram assassinadas no Peru 249 pessoas por “sua orientação sexual e identidade de gênero”, ou seja, uma a cada semana. Entre os casos mais horripilantes está o de Yefri Peña, que teve o rosto e o corpo desfigurado com um pedaço de vidro por cinco “machões”, os policiais se negaram a socorrê-la por ser travesti e os médicos de um hospital não quiseram atendê-la por considerá-la um “foco infeccioso” que se poderia transmitir aos que estavam em torno.

Os casos extremos são atrozes, mas o mais terrível para uma lésbica, gay ou transexual em países como Peru ou Chile não são casos mais excepcionais como esse, mas é a sua vida quotidiana condenada à insegurança, ao medo, a percepção constante de ser considerado perverso, anormal, um monstro.

Ter de viver na dissimulação, com o temor constante de ser descoberto e estigmatizado pelos pais, parentes, amigos e todo um círculo social preconceituoso que ataca furiosamente o gay como se ele tivesse uma doença contagiosa. Quantos jovens atormentados por esta censura social foram levados ao suicídio ou sofreram traumas que arruinaram suas vidas? Somente no círculo de amigos meus tenho conhecimento de muitos exemplos que não foram denunciados na imprensa nem apareceram nos programas sociais dos reformadores e progressistas.

Porque, no que se refere à homofobia, a esquerda e a direita confundem-se como uma única entidade devastada pelo preconceito e a estupidez. Não só a Igreja Católica e as seitas evangélicas repudiam o homossexual e opõem-se obstinadamente ao matrimônio de gays. Os dois movimentos subversivos que nos anos 80 iniciaram a rebelião armada para instalar o comunismo no Peru, o Sendero Luminoso e o MRTA – Movimento Revolucionário Tupac Amaru – executavam os homossexuais de maneira sistemática nos povoados que controlavam para libertar a sociedade de semelhante praga.

Libertar a América Latina dessa tara ancestral que são o machismo e a homofobia – as duas faces da mesma moeda – será demorado e difícil, e provavelmente o caminho até essa libertação estará repleto de muitas outras vítimas semelhantes ao desventurado Daniel Zamudio. O tema não é político, mas religioso e cultural. Fomos acostumados desde tempos imemoriais à ideia de que existe uma ortodoxia sexual da qual apenas os pervertidos, os loucos e enfermos se afastam e vimos transmitindo esse absurdo monstruoso para nossos filhos, netos e bisnetos, auxiliados pelos dogmas da religião, os códigos morais e os hábitos instaurados. Temos medo do sexo e nos custa aceitar que, neste incerto domínio, há opções e variantes que devam ser aceitas como manifestações da diversidade humana. Nesse aspecto da condição de homens e mulheres deve reinar a liberdade, permitindo que na vida sexual cada um escolha sua conduta e vocação sem outra limitação senão o respeito e a aquiescência do próximo.

Minorias começam a aceitar que uma lésbica ou um gay são pessoas tão normais como um heterossexual e, portanto, devem ter os mesmos direitos – como contrair matrimônio e adotar filhos -, mas ainda hesitam em lutar em favor das minorias sexuais porque sabem que, para vencer, é necessário mover montanhas, lutar contra um peso morto que nasce na rejeição primitiva do “outro”, daquele que é diferente, pela cor de sua pele, seus hábitos, sua língua e suas crenças, que é a fonte que nutre as guerras, os genocídios e os holocaustos que enchem a história da humanidade de sangue e de cadáveres.

Sem dúvida, avançamos muito na luta contra o racismo, mas não o extirpamos totalmente. Hoje, pelo menos, sabemos que não se deve discriminar ninguém e é de mau gosto alguém se proclamar racista. Mas nada disso existe no que se refere a gays, lésbicas e transexuais. Quanto a eles, podemos desprezar e maltratar impunemente. Eles são a demonstração mais reveladora de quão distante boa parte do mundo ainda está da verdadeira civilização. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

MARIO VARGAS LLOSA É ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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Gay? Eu?

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As primeiras lembranças que tenho da homoafetividade na minha vida são de quando eu estava entre a 5ª e 7ª série. Eu era apaixonada por uma coleguinha de classe, a Fernanda*. Eu ainda não entendia o que essa quase devoção significava. Não entendia mesmo. Eu só adorava conversar e estar com ela. E eu sempre fui uma pessoa que adora presentear aqueles que amo.

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Documentário: O amor vence

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Que lindo, gostei muito.

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Marcha das Vadias – Belo Horizonte – 2012

Amores,

“Pelo segundo ano, acontece em Belo Horizonte a Marcha das Vadias – ou Marcha das Vagabundas.

Este ano, o evento que já teve diferentes versões em inúmeras cidades do mundo, acontecerá em várias cidades brasileiras numa mesma data: o dia 26 de maio.

A ideia é ocupar as ruas de forma irreverente – e combativa – para chamar a atenção da sociedade para um preconceito do qual mulheres do mundo todo ainda são vítimas, a de serem julgadas em função da roupa que usam.

Diferentemente do que acontece com os homens, mulheres usando roupas curtas estão mais vulneráveis ao assédio, um condicionamento sócio cultural que se manifesta não apenas nas ruas, mas também na estrutura de nossas instituições. É comum, por exemplo, juízes, advogados ou mesmo policiais fazerem referência às roupas que uma mulher costuma usar para justificar a atitude de um agressor. Trata-se de um comportamento aparentemente inofensivo, mas que nada mais é que um reflexo de uma lógica sexista perversa que prefere julgar a vítima, e não o agressor.

Nós não temos a ilusão de que vamos “mudar o mundo” com uma marcha, como insistem em aclamar os descontentes com a ideia de marcharmos em favor da nossa liberdade. Tampouco queremos fazer apologia a este ou àquele comportamento. Queremos, pois, que as mulheres sejam livres para se vestir e se portar como bem entenderem, e que tais escolhas não sirvam nunca de justificativa à prática de nenhum tipo de violência.”

(texto do evento do face da marcha de bh)

VADIAS DO MUNDO, UNI-VOS MAIS UMA VEZ!

“O Movimento teve origem em Toronto, Canadá, quando um policial aconselhou às mulheres que evitassem se vestir como “vadias” a fim de evitar a violência sexual. A infeliz declaração motivou um grupo de feministas a sairem as ruas, vestidas como “vadias”, com o propósito de chamar a atenção da sociedade para a lógica presente na fala do policial: a de culpar a vítima pela agressão sofrida.

Desde então, diferentes versões da Marcha foram organizadas em várias cidades dos Estados Unidos, da Europa e América Latina. No Brasil, a primeira “Slut Walk” ocorreu na cidade de São Paulo, no dia 04 de junho de 2011, a partir de uma convocatória realizada no Facebook.” Adriana Torres 

https://www.facebook.com/events/338991979490512/Imagem

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Assunto: obrigada

———- Mensagem encaminhada ———-
De: leitora do inquietudine
Data: 24 de agosto de 2011 15:22
Assunto: obrigada
Para: erikapuc@gmail.com

Oi,

Você não me conhece e eu também não te conheço, mas acabei de ler o seu blog pela primeira vez. Fui parar lá por indicação de uma amiga, que, como eu, é feminista e me mostrou o post “Dispenso esta rosa”, da Marjorie Rodrigues, que você reblogou.

 Gostei do blog e resolvi começar a ler outros posts. Li o “Gay? Eu?” e o “As coisas vão melhorar” e comecei a chorar muito. Ainda estou chorando, enquanto te escrevo isso.

 Estou chorando porque eu fiquei triste com a sua história, mas também porque eu me identifico com ela. Devo ser só mais uma – o que é uma pena, essa é uma situação bem triste para ser vivida tantas e tantas vezes, por tantas pessoas.

Estou chorando porque eu não acredito em mais nada na minha vida, e ser gay tem adicionado um sabor especial a toda essa descrença. Não propriamente ser gay, mas mais a maneira como tenho percebido o que isso pode significar para quem está ao meu redor.

Eu sempre achei que eu não precisaria contar para a minha mãe que eu sou gay. Sempre achei que eu conseguiria levar, que ela nunca acharia estranho eu não mencionar que quase nenhum menino fizesse parte da minha vida, que eu estivesse sempre cercada de meninas (até mesmo dentro da minha casa), que só falasse sobre mulheres, que me entusiasmasse bem mais para falar sobre qualquer assunto que tivesse a ver com mulheres. Sempre achei que simplesmente chegaria um dia em que eu decidiria sair de casa e, então, casualmente, eu pudesse mencionar a minha orientação sexual, sem ter que passar por uma situação constrangedora ou até mesmo traumática.

Mas não estou agüentando mais. Sinto que eu estou vivendo uma mentira. Você já sentiu que está mentindo, só por estar omitindo a verdade?

Sem querer fazer comparações, mas apenas fazendo um paralelo, acho que eu tenho um pouco mais de sorte que você. Fui educada em colégios burgueses de São Paulo, em que uma elite intelectual esclarecida sempre se mostrou forçosamente contra a homofobia – não que não existisse um preconceito por parte dos alunos; acho que isso seria impossível. Hoje estudo design na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Usp, uma faculdade em que ser gay é quase tão natural quanto ser heterossexual. Meus amigos me respeitam (e eu tenho muitos amigos heterossexuais) e eu gosto de ser gay. Gosto muito. (Fora a parte de ter que enfrentar preconceitos quase que diários, que freqüentemente se manifestam de maneira impressionante, como você mesma mencionou, principalmente quando estou acompanhada de outra garota, em espaços públicos.) Não me vejo sendo de outra forma, ser gay faz parte de mim, é a minha essência.

E isso é o que mais me incomoda. Eu coloco os meus pés para fora de casa e, de repente, eu sou a menina-machinho que faz piada sobre pegar a amiga alheia. Todo o mundo sabe que eu sou gay. E eu não tenho vergonha (talvez só um pouco de receio, dependendo de quem for o meu interlocutor) em dizer que eu sou gay. Enfim, todo o mundo sabe, menos a minha família. (Só para constar: minha irmã, mais velha, sabe e me apóia, sempre me apoiou. Meu pai morreu há dois anos, também sem saber.) Minha mãe, que eu considero ser muito próxima de mim (hoje moro só com ela, já que minha irmã se casou), e que, por isso, deveria saber muito sobre mim, não sabe que eu sou gay. Isso me incomoda muito. Sinto que eu não posso ser eu mesma dentro da minha casa. Tenho que desconversar quando minha mãe me pergunta por que eu nunca tive um namorado, por exemplo.

Aliás, eu nunca tive uma namorada. Acho que ninguém nunca gostou de mim do jeito que eu queria que tivesse gostado. A não ser um número incontável de homens que se disseram apaixonados e quiseram a qualquer custo me convencer de que eu não era lésbica. Isso é algo que me deixa particularmente irritada, mas não importa agora; eu não disse isso para levantar um discurso anti-homofobia. Eu só queria dizer que eu acho que, se eu tivesse uma namorada, talvez eu me visse obrigada a contar para a minha mãe que eu sou lésbica. Não sinto vontade de namorar ninguém, então acho que eu me escondi atrás desse plano como forma de me enganar e de postergar a conversa que eu preciso ter com a minha mãe.

Bom, você não me conhece e eu também não te conheço, e eu nem sei se a minha história vai te interessar. Mas me fez bem escrever sobre isso. (Eu não estou mais chorando.) Acho que era só disso que eu precisava. E foi um pouco melhor do que escrever em uma página do Word e deixar o arquivo salvo por sabe-se lá quanto tempo. Obrigada.

E obrigada por pensar e divulgar suas opiniões. Se não chega a quem merece/precisa de fato escutar, como você disse, acaba fazendo diferença para muitas pessoas, posso garantir. Fez diferença para mim – pelo menos para que eu soubesse que não estou sozinha, que assumir a minha sexualidade dentro da minha casa é, sim, algo bem complicado.

Obrigada mais uma vez,

leitora do inquietudine

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1, 2,3, 4, 5 anos depois (ou Pede que eu te chupo!)

(carta de repúdio do Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual GUDDS! UFMG)

Em 2007, @s estudantes veteranos da engenharia impunham como rito de passagem @s calour@s um trote em que semi-nus, pintad@s e suj@s de farinha caminhavam pelo campus em direção à avenida Antônio Carlos entoando cantos, dentre eles um que ficou famoso “1, 2, 3, 4, na FAFICH só tem viado. 4,3,2,1 eles dão pra qualquer um”. Frente a essa situação de clara intolerância e homofobia, um grupo de estudantes se reuniu para dizer que não era possível continuar tolerando a homofobia dentro do campus e cobrar da administração alguma atitude. Nascia assim o GUDDS! – Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual.

Em resposta aos trotes homofóbicos o GUDDS realizou dentro da UFMG duas audiências públicas, em que denunciava a existência dessas ações. Em resposta a administração, representada na maioria das vezes em que o diálogo ocorreu pela Diretoria de Assuntos Estudantis – DAE, se recusava a reconhecer a situação. Em um primeiro momento afirmou claramente desconhecer do trote, em um segundo, afirmou que mesmo que ele ocorresse, não haveria ali nenhuma homofobia, apenas um rito de passagem compartilhado pel@s estudantes. Sob pressão a administração realizou uma campanha chamada “a diversão não é só sua”, para tentar instituir um ambiente de maior tolerância, mas não abordou diretamente a questão do machismo ou homofobia nos trotes.

Cinco anos se passaram desde 2007 e nos perguntamos: reitoria, o que foi feito em relação aos trotes homofóbicos e machistas? Aparentemente nada. Jornais locais, como o Estado de Minas, apontam que nessa quinta, dia 22 de Março de 2012, mais uma vez ocorreu um trote que faz uso de violências como um ritual de passagem. Segundo os relatos dos jornais não apenas duas calouras foram amarradas a um poste, como alguns veteranos fantasiados de policiais pegaram uma camisinha, colocaram em um cassetete e fizeram com que calouros e calouras chupassem. O GUDDS exige imediata investigação para que se apure a veracidade dos fatos narrados.

Caso considerados verdadeiros, o GUDDS repudia essa ação d@s veteran@s, não é possível que se tolere trotes em que se violente mulheres, restrinja suas liberdades e as reduzam a objetos. Não é razoável que a dinâmica do trote seja pacífica como afirmam @s organizadores. Sabemos que o consentimento nessas ações coletivas é algo fraco, que a recusa de participar dos trotes muitas vezes é algo impossível, mesmo que seja anunciado como tal, pois há o medo d@ calour@ da rejeição pela turma e pel@s veteran@s no caso da recusa. Participar do ritual é uma forma de ser aceit@ no grupo e por essa razão muit@s consentem com a humilhação.

Além disso, sabemos que a dinâmica pela qual o preconceito atua impede de percebermos os limites da realidade, o machismo e a homofobia nos cegam de percebermos nossas próprias ações como machistas e homofóbicas! A ideia que organiza esse tipo de trote reproduz uma hierarquia de gênero, sexualidade e poder: masculino/feminino, chupado/chupador, dominante/dominado, humano/inumano, sujeito/objeto. O falo que é chupado nessa relação é um símbolo de poder, daquele que é chupado em relação ao que chupa (um símbolo de poder reforçado pelas vestimentas de policial). O ato de chupar nessa situação representa algo degradante, uma relação de submissão e que é ligada diretamente ao feminino, ou seja, aquele que não possui o falo. O chupador, por não possuir o poder do falo, se submete ao outro. Ele deixa de ser sujeito, a humilhação ligada a relação de subalternização retira a condição de sujeito e de humano daquele que chupa, reduzindo-o a objeto. Quando aplicado a outros homens a ação de chupar aplica uma lógica similar: dessa vez, o ato de chupar não é visto como algo adequado para o comportamento masculino, uma vez que chupar está ligado ao feminino. Sendo assim, o homem ao se aproximar do feminino perde sua condição de poder, sendo reduzido a condição de homossexual – como se a homossexualidade fosse uma deterioração da masculinidade heterossexual em direção ao feminino -. Em última instância a humilhação percebida nessa brincadeira se dá porque se atribui tanto ao feminino quanto ao homossexual status negativos. O que esse trote quer dizer é que em nossa sociedade mulheres e homossexuais são seres inferiores. Esse trote está dizendo que chupar não é algo bom!

O GUDDS não coaduna com esse projeto de sociedade reproduzido pelos estudantes do IGC em que feminilidade e homossexualidade são coisas negativas. Abaixo o falocentrismo, o machismo e a homofobia! Reivindicamos o direito a autodeterminação das nossas próprias identidades, reivindicamos a autonomia aos nossos corpos, afirmamos veementemente que ser mulher, ser gay, travesti, lésbica, bi ou trans é bom! Aproveitamos também para ressignificar a ideia do chupar. Gritamos em alto e bom tom: somos senhor@s de nossos corpos, de nossos fazeres e de nossos gozos. Chupamos e não somos inferiores. Chupamos se queremos, quando queremos e quem queremos. Chupamos, somos chupad@s e convidamos a todos vocês para chuparem e serem chupad@s. Chupamos e é bom!

Com isso o GUDDS deseja reivindicar o fim dos trotes homofóbicos e machistas dentro da UFMG com a investigação e responsabilização dos organizadores caso seja confirmado como verídico o conteúdo machista e homofóbico. Reivindicamos que a UFMG institua imediatamente políticas para evitar futuros trotes homofóbicos e machistas. Reivindicamos uma política integral de promoção do respeito a diversidade sexual e as mulheres na Universidade!

http://gudds.net/

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